ENTRE O PROTOCOLO E O PORVIR:

narrativas trans e os limites da formação médica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.29327/


Palavras-chave:

Pessoas transgênero; Currículo; Faculdades de Medicina; Identidade de Gênero; Relato de experiência.

Resumo

Afinal, o que há de útil em se estudar saúde sexual e diversidade de gênero no currículo médico? Quando nossas experiências como pessoas trans não encontram lugar na linguagem clínica, sobra o estranhamento de estar presente, mas não ser reconhecide. A recusa em aceitar que o cuidado só se efetiva diante de um sofrimento codificado se articula aqui com os saberes produzidos por movimentos sociais e coletivos trans, que há décadas tensionam as fronteiras entre ciência, corpo e autoridade. Através de relatos de experiências analisados numa perspectiva cartográfica e transfeminista, tencionamos a formação médica a partir de vivências trans de quem já ocupou os lugares de paciente, estudante e profissional da saúde. Revisitamos o currículo médico como território de disputas epistemológicas, onde a exclusão dessas temáticas sustenta práticas iatrogênicas e reafirma a cis-heteronormatividade como norma. Em diálogo com Foucault, Canguilhem, Haraway e Preciado, propomos uma medicina capaz de reconhecer a intraduzível pela linguagem médica como legítimo, não como erro ou desvio, mas como enunciação de um porvir. Convocamos uma reconfiguração radical do raciocínio clínico, onde a dissidência não seja exceção tolerada, mas fundação crítica de um outro modo de produzir ciência, cuidado e presença.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Dri Nascimento, Universidade de São Paulo – USP

    Psicólogue, trans não-binárie (pronomes elu/ele/ela). Mestre pelo Programa de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Doutorande pela mesma instituição. Especialista em Atendimento Clínico das Diversidades Sexuais e de Gênero pelo Instituto de Pesquisa em Psicanálise e Relações de Gênero (IPPERG).

  • Nicolas Pustilnick, Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ

    Nicolas Pustilnick é psicólogo (CRP 05/71942) formado na UFRJ, mestrando em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ, especializando em "Atendimento Clínico das Diversidades Sexuais e de Gênero" pelo IPPERG/FAUSP, co-fundador da Revista Estudos Transviades, já foi colaborador do CRP-RJ no eixo "Gênero e Diversidade" e é co-organizador do livro "Corpos Transitórios: Narrativas Transmasculinas" e "Estudos Transviades: Masculinidades Outras".

  • Renée Cessel, Instituto de Pesquisa em Psicanálise e Relações de Gênero – IPPERG

    Manauara, trans não-binárie (pronomes ele/elu). Médico formado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com Pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Membro da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinóide (APMC) e atualmente estudante de Psicanálise e Relações de Gênero pelo Instituto IPPERG.



  • Letícia Nascimento, Universidade Federal do Piauí – UFPI

    Letícia Carolina Nascimento é mulher travesti, negra e gorda. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). É professora do curso de Pedagogia (CAFS/UFPI). Autora do livro Transfeminismo, na coleção Feminismos Plurais, com coordenação de Djamila Ribeiro, e do livro infantil Leca, inspirado em sua infância trans. É ativista social atuando junto a coordenação executiva nacional do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (FONATRANS). Pesquisadora filiada ao NEPEGECI/UFPI e a ABPN.

Referências

ALMEIDA, Guilherme. “Homens trans”: novos matizes na aquarela das masculinidades? Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 20, n. 2, p. 513-523, maio/ago. 2012.

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229-236, 2000.

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. 3. ed. Salvador: Devires, 2017.

BRANCO, Rosele Maria. Michel Foucault e a medicina: sobre o nascimento da clínica moderna. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018. Disponível em: https://tede.pucsp.br/handle/handle/21440. Acesso em: 29 jul. 2026.

BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.265, de 20 de setembro de 2019. Dispõe sobre o cuidado específico à pessoa com incongruência de gênero ou transgênero e revoga a Resolução CFM nº 1.955/2010. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 96, 9 jan. 2020. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2019/2265. Acesso em: 29 jul. 2026.

BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.427, de 8 de abril de 2025. Revisa os critérios éticos e técnicos para o atendimento a pessoas com incongruência e/ou disforia de gênero e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 174, 16 abr. 2025. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2025/2427. Acesso em: 29 jul. 2026.

BRITO, Carolina Franco; TONELI, Maria Juracy Filgueiras; OLIVEIRA, João Manuel de. “Destransição de gênero” como trânsito e errância: abertura para novas corporalidades. Revista Periódicus, Salvador, v. 1, n. 17, p. 232-256, 2022. DOI: https://doi.org/10.9771/peri.v1i17.45627.

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. In: CANGUILHEM, Georges. O conhecimento da vida. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

CARVALHO, Mario; CARRARA, Sérgio. Em direito a um futuro trans?: contribuição para a história do movimento de travestis e transexuais no Brasil. Sexualidad, Salud y Sociedad, Rio de Janeiro, n. 14, p. 319-351, ago. 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sess/a/bwWdcsDTNwS9mxzBkX6MSmx/. Acesso em: 29 jul. 2026.

CERQUEIRA, Ana Teresa de Abreu Ramos; LIMA, Maria Cristina Pereira. Crenças sobre sexualidade entre estudantes de Medicina: uma comparação entre gêneros. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, v. 32, n. 1, p. 49-55, 2008. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/items/37c8d115-d0e1-4f18-93e3-856a88d3cb83. Acesso em: 29 jul. 2026.

FAVERO, Sofia. Lapidar os sentidos da infância: reimaginando o cuidado com crianças trans. 2025. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e Institucional) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2025.

FERLA, Alcindo Antônio; OLIVEIRA, Paulo de Tarso Ribeiro de; LEMOS, Flávia Cristina Silveira. Medicina e hospital. Fractal: Revista de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, p. 487-500, 2011. Disponível em: https://periodicos.uff.br/fractal/article/view/4863. Acesso em: 29 jul. 2026.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: a vontade de saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1980.

GUEDES, Carla Ribeiro; NOGUEIRA, Maria Inês; CAMARGO JÚNIOR, Kenneth Rochel de. A subjetividade como anomalia: contribuições epistemológicas para a crítica do modelo biomédico. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 11, n. 4, p. 1093-1103, 2006. DOI: https://doi.org/10.1590/S1413-81232006000400030.

HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41, 1995.

JESUS, Juliana. Operadores do direito no atendimento às pessoas trans. Revista Direito & Práxis, Rio de Janeiro, v. 7, n. 15, p. 537-556, 2016.

KOIFMAN, Lilian. A teoria do currículo e a discussão do currículo médico. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, v. 22, n. 2-3, p. 37-47, 1998.

KOIFMAN, Lilian. O modelo biomédico e a reformulação do currículo médico na Universidade Federal Fluminense. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 49-70, mar./jun. 2001.

NASCIMENTO, Letícia. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021.

NEVES, André Luiz Machado das; SÍVORI, Horacio Federico. Ação política em saúde de pessoas trans em Manaus, Amazonas, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 29, n. 1, p. 123-134, jan. 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/hWJqqR3CLqrMZ8cgfrf9xWw/. Acesso em: 29 jul. 2026.

NOGUEIRA, Ronaldo Pessanha. Do físico ao médico moderno. São Paulo: Editora Unesp, 2007.

OSMO, Alan; SCHRAIBER, Lilia Blima. O campo da Saúde Coletiva no Brasil: definições e debates em sua constituição. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 24, supl. 1, p. 205-218, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sausoc/a/QKtFb9PkdpcTnz7YNJyMzjN/. Acesso em: 29 jul. 2026.

PFEIL, Cello Latini; PFEIL, Bruno Latini. A cisgeneridade em negação: apresentando o conceito de ofensa da nomeação. Revista de Estudos em Educação e Diversidade, Vitória da Conquista, v. 3, n. 9, p. 1-24, jul./set. 2022. Disponível em: http://periodicos2.uesb.br/index.php/reed. Acesso em: 29 jul. 2026.

PRECIADO, Paul B. Eu sou o monstro que vos fala: relatório para uma academia de psicanalistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

RIBEIRO, Paula; BEDIN, Rosângela. Algumas reflexões sobre a formação do pensamento sexual brasileiro a partir da historiografia da educação sexual. In: TEIXEIRA, Filomena et al. (org.). Sexualidade e educação sexual: políticas educativas, investigação e práticas. Braga: Centro de Investigação em Educação, 2010.

ROLNIK, Suely. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético-estético-política no trabalho acadêmico. Cadernos de Subjetividade, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 241-252, 1993. DOI: https://doi.org/10.2354/cs.v1i2.38134.

RUFINO, Andréa Cronemberger; MADEIRO, Alberto Pereira; GIRÃO, Manoel João Batista Castello. O ensino da sexualidade nos cursos médicos: a percepção de estudantes do Piauí. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, v. 37, n. 2, p. 178-185, 2013.

SAFATLE, Vladimir. O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem. Scientiae Studia, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 11-27, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ss/a/VfqSSxvQ7WBQyrKKbJwjpWx/. Acesso em: 29 jul. 2026.

SAMPAIO, Juliana Vieira. Permanências e rupturas das práticas de regulação da transexualidade no Brasil. Sanare: Revista de Políticas Públicas, Sobral, v. 20, n. 1, p. 33-42, jan./jun. 2023. Disponível em: https://sanare.emnuvens.com.br/sanare/article/view/1691. Acesso em: 29 jul. 2026.

SANTOS, Adriana Stephanie Nascimento dos. O mundo está mudando rápido demais? Gênero e sexualidade no currículo médico: a perspectiva de professores de um curso de graduação em medicina no Estado de São Paulo. 2023. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2023. DOI: https://doi.org/10.11606/D.5.2023.tde-02052023-160919.

SILVA, E. A escola, a clínica e a sexualidade humana. Perspectiva, Florianópolis, v. 16, n. 30, p. 115-142, 1998.

SPOHR, Ju. Mapeando vozes não binárias nas redes sociais. Ponta Grossa: Monstro dos Mares; Catraca, 2024.

Downloads

Publicado

26-08-2026

Edição

Seção

Dossiê Temático: Produção de conhecimentos, verdades e subjetividades na interface entre currículos e saúde sexual

Como Citar

ENTRE O PROTOCOLO E O PORVIR:: narrativas trans e os limites da formação médica. (2026). Revista Brasileira De Estudos Da Homocultura, 9(24). https://doi.org/10.29327/