Matéria profusa: apresentação ao dossiê

Autores

  • Ana Cláudia Marques

Resumo

Blood is thicker than water” [o sangue é mais denso/grosso/espesso do que a água] é um antigo provérbio inglês, popularmente usado para expressar a prevalência dos laços familiares sobre outros tipos de vínculos entre as pessoas. Através desse provérbio, Schneider sintetiza os argumentos desenvolvidos em suas duas obras principais, Americam Kinship: a cultural account (1968) e A critique of the study of kinship (1984). No primeiro livro, com base nos dados colhidos das entrevistas que realizou em diferentes segmentos da população americana, Schneider distingue o sangue como um símbolo fundamental de um sistema cultural, mediante o qual o parentesco se define como uma relação de identidade e de substância biogenética entre pessoas. Nesse sistema, a relação de sangue é culturalmente definida como um fato objetivo da natureza. Isso não significa que apenas os consanguíneos sejam parentes entre si, pois também o casamento gera parentesco (o amor é outro dos símbolos fundamentais daquele sistema). Contudo, os laços de sangue estabelecem parentesco de certa ordem, natural, em referência à qual o parentesco por código, ordem da lei, se define. Essa sorte de prevalência do sangue nas concepções americanas sobre o parentesco é também verificada, segundo Schneider, nos estudos de Parentesco na antropologia. Ao se debruçarem sobre outros sistemas culturais, antropólogos de todas as linhagens da disciplina não lograram se desvencilhar de suas ideologias nativas, imbuídas desse mesmo pressuposto. A própria presunção de existência de sistemas de parentesco em outras culturas não passaria de uma projeção sobre o outro das ideias dos antropólogos. Em A critique of the study of kinship, o provérbio condensa, portanto, uma denúncia de etnocentrismo.

Downloads

Publicado

2020-12-22

Edição

Seção

Dossiê Temático: O que carrega o sangue?