Escrevivência, a poética negra feminista e a fabulação crítica:

cruzos entre Conceição Evaristo, Denise Ferreira da Silva e Saidiya Hartman no fazer pesquisa negra/o

Autores

DOI:

https://doi.org/10.29327/


Palavras-chave:

Epistemologia, Escrevivência, Metodologia, Pesquisa

Resumo

Este ensaio parte de uma constatação: perscrutando o campo dos saberes ocidentais e as formas como nomeamos o fazer pesquisa, constata-se uma série de interpelações, inquirições e transformações em diferentes campos do conhecimento e suas formas epistemo-metodológicas canônicas. Parte considerável deste cenário transformador ancora-se, por um lado, em epistemologias e metodologias contracoloniais que ganharam força nas últimas décadas e, por outro lado, na intensificação e na agência de estudantes, pesquisadoras/es negras/os, indígenas, quilombolas, ribeirinhas/os e lgbt+ que, ao ocuparem o lugar de produtores de conhecimento, deram-se conta de um processo de objetificação e violência por parte de inúmeros campos de conhecimento, tensionando e reescrevendo os sistemas de enunciação do fazer pesquisa. Logo, o cerne deste texto são as produções negras que têm tensionado os saberes e as formas de produzir pesquisa que trazem a negridade e os arquivos da escravização como espinha dorsal. Para tanto, elege-se a escrevivência, como constituída por Conceição Evaristo, como fio condutor das transformações epistemo-metodológicas em diferentes contextos acadêmicos, promovendo um cruzo com a poética negra feminista conforme elaborada por Denise Ferreira da Silva e a fabulação crítica como defendida por Saidiya Hartman, enquanto alicerces ancestrais epistêmicos e metodológicos que têm dado régua e compasso para que a comunidade negra reelabore suas formas de produção de conhecimento no âmbito acadêmico. O objetivo, assim, é situar a escrevivência no âmago de um reviramento que tem reafirmado que precisamos realmente dar um fim à pesquisa como conhecemos. 

Biografia do Autor

  • Fátima Lima, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
    Antropóloga. Professora Associada. Coordenadora do Grupo de Pesquisa ORÌ / CNPQ. Autora dos livros: Corpos, Gênero e Sexualidade : Políticas de Subjetivação e A Persistência e o Tempo - escritos sobre raça, racismo e poder.

Referências

BARONI, Patrícia; RODRIGUES, Allan; BORGES, Luís Paulo Cruz. Conversa de porta aberta com Fátima Lima: “epistemologia da pedagogia antirracista: alternativas ao pensamento hegemônico estrutural”. Entrevista com Fátima Lima. Revista Educação e Emancipação, São Luís, v. 16, n. 3, p. 794-807, set./dez. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.18764/2358-4319v16n3.2023.67. Acesso em: 13 maio 2025.

BORGES, Rosane. Escrevivência em Conceição Evaristo: armazenamento e circulação dos saberes silenciados. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. p. 182-204. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Escrevivencia-A-Escrita-de-Nos-Conceicao-Evaristo.pdf. Acesso em: 20 abr. 2025.

CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro, Zahar, 2023.

DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Escrevivencia-A-Escrita-de-Nos-Conceicao-Evaristo.pdf. Acesso em: 20 abr. 2025.

EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. p. 26-46. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Escrevivencia-A-Escrita-de-Nos-Conceicao-Evaristo.pdf. Acesso em: 20 abr. 2025.

EVARISTO, Conceição. Recordar é preciso. In: EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. 3. ed. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 11.

FELISBERTO, Fernanda. Escrevivência como rota de escrita acadêmica. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. p. 164-180. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Escrevivencia-A-Escrita-de-Nos-Conceicao-Evaristo.pdf. Acesso em: 20 abr. 2025.

GONZÁLEZ, Lélia. Nanny. In: GONZÁLEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia González em primeira pessoa. Diáspora Africana: Ed. Filhos da África, 2018a. p. 335-342.

GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: GONZÁLEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia González em primeira pessoa. Diáspora Africana: Ed. Filhos da África, 2018b. p. 190-213.

HARTMAN, Saidiya. Uma nota sobre o método. In: HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. Tradutor: Floresta. São Paulo: Fósforo, 2022a. p. 11-13.

HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Trad. José Luiz Pereira da Costa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

HARTMAN, Saidiya. A terrível beleza do gueto. In: HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. Tradutor: Floresta. São Paulo: Fósforo, 2022b. p. 23-31.

HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. Tradutor: Floresta. São Paulo: Fósforo, 2022c.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Trad. Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

KRENAK, Ailton. [Participação em mesa redonda]. In: OS MIL NOMES DE GAIA: DO ANTROPOCENO À IDADE DA TERRA, 2014, Rio de Janeiro. [S. l.: s. n.], 2015. 1 vídeo (25 min 34 s). Publicado pelo canal Os Mil Nomes de Gaia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=k7C4G1jVBMs&t=972s. Acesso em: 25 maio 2025.

LIMA, Fátima. Escrevivência e a fabulação crítica do (im)possível, ou como en(cantar) numa academia no fim de um mundo. In: LIMA, Fátima. A persistência e o tempo: escritos sobre raça, poder e racismo. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2024. p. 55-63.

MARTINS, Leda. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.

MBEMBE, Achille. Políticas da inimizade. Tradução: Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2020.

MILLS, C. Wright. O contrato racial. Tradução: Teófilo Reis e Breno Santos. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

MOMBAÇA, Jota; MATTIUZZI, Musa Michelle. Carta à leitora preta do fim dos tempos. In: SILVA, Denise Ferreira da. A dívida impagável. São Paulo: Oficina de. Imaginação Política e Living Commons, 2019. p. 15-25. Disponível em: https://casadopovo.org.br/wp-content/uploads/2020/01/a-divida-impagavel.pdf. Acesso em: 4 abr. 2025.

MOTEN, Fred. Ser prete e ser nada (misticismo na carne). In: BARZAGHI, Clara; PATERNIANI, Stella Z.; ARIAS, André (org.). Pensamento negro radical: antologia de ensaios. Tradução: André Arias e Clara Barzaghi. São Paulo: Crocodilo; n-1 edições, 2021. p. 131-191.

RUFINO, Luiz. Pedagogias das encruzilhadas. Revista Periferia, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 71-88, jan./jun. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.12957/periferia.2018.31504. Acesso em: 10 mar. 2025.

SANTOS, Abrahão; OLIVEIRA, Luiza. A metodologia do espelho de oxum na Psicologia. Revista da ABPN. v.16, 2023.

SHARPE, Christina. No vestígio: negridade e existência. Tradução: Jess Oliveira. São Paulo: UBU, 2023.

SPILLERS, Hortense J. Bebê da mamãe, talvez do papai: uma gramática estadunidense.). In: BARZAGHI, Clara; PATERNIANI, Stella Z.; ARIAS, André (org.). Pensamento negro radical: antologia de ensaios. Tradução: André Arias e Clara Barzaghi. São Paulo: Crocodilo; n-1 edições, 2021.p.29-69.

SILVA, Denise Ferreira da. Para uma poética negra feminista: a busca/questão da negridade para o (fim do) mundo. In: SILVA, Denise Ferreira da. A dívida impagável. São Paulo: Oficina de. Imaginação Política e Living Commons, 2019. p. 85-118. Disponível em: https://casadopovo.org.br/wp-content/uploads/2020/01/a-divida-impagavel.pdf. Acesso em: 4 abr. 2025.

Downloads

Publicado

13-07-2026

Edição

Seção

Dossiê Temático: Dar fim a pesquisa como conhecemos

Como Citar

Escrevivência, a poética negra feminista e a fabulação crítica:: cruzos entre Conceição Evaristo, Denise Ferreira da Silva e Saidiya Hartman no fazer pesquisa negra/o. (2026). Revista Brasileira De Estudos Da Homocultura, 8(23). https://doi.org/10.29327/