Para pensar o corpo nas políticas de currículo
DOI:
https://doi.org/10.29327/2410051.8.23-86Resumo
O presente artigo tem como tema central a crítica ao moralismo acadêmico que objetifica o corpo, reduzindo-o e perpetuando um fetiche colonizador. Os objetivos são disseminar a alegria e a espontaneidade na produção da corporeidade nas políticas de currículo, desafiando a hegemonia e o "Cistema" que teme a mutabilidade, além de propor um corpo performativo capaz de criar espaço-tempo e ampliar as condições e possibilidades de vivibilidade. A intenção não é atacar, mas produzir entendimentos sobre a forma como discursos de ódio são operados e seus efeitos, buscando operar ideias de hospitalidade sem contra-atacar e sim disseminar sentidos que promovam a abertura à alteridade. Embora o texto não detalhe uma metodologia formal de pesquisa, ele se estrutura como uma análise teórica e ensaística. Apontamos para a prevalência de um puritanismo acadêmico que cerceia vivibilidades outras e que o "Cistema" instrumentaliza a difamação para criar uma falsa noção de limpeza. As monstruosidades incomodam a hegemonia por exporem a mutabilidade, enquanto a espontaneidade e a alegria são pensamentos abertos e dinâmicos, que a estrutura política tem dificuldade de ordenar. A análise revela que as políticas educacionais, ao evitarem os emaranhados dos corpos sensoriais, tentam afirmar um corpo estável e uma política unificada. O artigo defende que a prática não é oposta à reflexão teórica e que os pesquisadores têm a tarefa urgente de deseducar-se do cânone limitador para ampliar os horizontes de possibilidades. O corpo é visto como uma territorialidade contraditória que nos convida a experienciar outro tipo de comunidade, onde o si mesmo só existe na relacionalidade. A aposta é na performatividade e na abertura à alteridade, valorizando o afeto e a espontaneidade para uma educação que acolha a vulnerabilidade constitutiva de toda subjetividade como resposta à alteridade.
Downloads
Referências
ALVES, Nilda. Sobre movimentos das pesquisas nos/dos/com os cotidianos. Revista Teias, v. 4, n.7, p. 1-8, 2003.
ARAUJO, Hellen; LOPES, Alice. Redes políticas de currículo: a atuação da Fundação Getúlio Vargas. Práxis Educativa, [S. l.], v. 16, p. 1-18, 2021.
BARAD, Karen. Performatividade Pós-humanista: para entender como a matéria chega à matéria. Revista Vazantes, v. 1, n. 1, p. 7-34. 2017.
BARCELLOS, Virginia Maria. Quantas Virginias cabem dentro de um fusca? uma enunciação f(r)iccio (a)nal autobiográfica com o universo da palhaçaria. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017.
BRASILEIRO, Castiel Vitorino. Tornar-se Imensurável: o mito Negro Brasileiro e as estéticas macumbeiras na Clínica da Efemeridade. Texto de Qualificação (Pós- Graduação em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP, 2021.
BROWN, Wendy. Undoing demos: neoliberalism’s stealth revolution. New York: Zone Books, 2015.
BUTLER, Judith. The force of nonviolence: an ethico-political bind. Brooklin: Verso, 2018.
CASTRO, Bruno. F.; LOPES, Alice. C. “Professor, posso inventar qualquer história?”: práticas de significação no currículo de História. Revista Espaço do Currículo, [S. l.], v. 13, n. Especial, p. 700-710, 2020.
CASTRO, Bruno Fernando. Professor pode inventar qualquer história? Hospitalidade e currículo em História. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.
CORAZZA, Sandra Mara. Os sentidos do currículo. Teias, v. 11, n. 22, p. 149-164, maio/ago. 2010.
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2006.
DERRIDA, J., & Houdebine, J. L. Interview: Jacques Derrida. Diacritics, 33-46, 1973.
DESPRET, Vinciane. Leitura etnopsicológica do segredo. Fractal: Revista de Psicologia [online]. 2011, v. 23, n. 1.
FAUSTO, Carlos. Da inimizade. Forma e simbolismo da guerra indígena. In: A outra margem do Ocidente. NOVAES, A. (org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 251-280.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Ed. Vozes, 1977.
FREIRE, Paulo. Educadores de rua: uma abordagem crítica: alternativas de atendimento aos meninos de rua. 1989.
GREINER, Christine. Corpos Crip: Instaurar Estranhezas para Existir. São Paulo: Editora N-1, 2023.
HADDOCK-LOBO, Rafael. Para um pensamento úmido: a filosofia a partir de Derrida. Rio de Janeiro: Nau/EdiPUC-Rio, 2011.
INGOLD, Tim. Imagining for real: essays on creation, attention and correspondence. Abingdon: Routledge, 2022.
LACLAU, Ernesto. Emancipação e Diferença. Rio de Janeiro: EdUerj, 2011.
LAGROU, Elsje. Alteridade e identidade de uma perspectiva kaxinawa. In: ESTERCI, N.; FRY, P.; GOLDENBERG, M. (orgs.). Fazendo Antropologia no Brasil. Rio de Janeiro: Capes, DP&A Editora, pp. 93-127, 2007.
LEMOS, Guilherme; MACEDO, Elizabeth. A incalibrável competência socioemocional. Linhas Críticas, v. 25, p. 57-73, 2019.
LOPES, Alice Casimiro. Itinerários formativos na BNCC do Ensino Médio: identificações docentes e projetos de vida juvenis. Retratos da Escola, 13(25), 59–7, 2019.
LOPES, Alice Casimiro. Ensino médio: Criando um projeto moral para gerenciar o futuro dos jovens. Cadernos De Pesquisa, 54, e11191, 2024.
LOPES, Alice; MACEDO, Elizabeth. Teorias de Currículo. São Paulo: Cortez, 2011.
MACEDO, Elizabeth. Fazendo a Base virar realidade: competências e o germe da comparação. Retratos da Escola, v. 13, p. 39-58, 2019.
MACEDO, Elizabeth. BNCC e a Reforma do Ensino Médio. Coletiva, Recife, n. 31 Coletiva. set.out.nov.dez. 2022.
MACEDO, Elizabeth; SILVA, Marlon Silveira da. A promessa neoliberal-conservadora nas políticas curriculares para o Ensino Médio: felicidade como projeto de vida. Revista Educação Especial, 35, e55/1–23, 2022.
MACEDO, Elizabeth. Currículo como espaço-tempo de fronteira cultural. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, v. 11, n.32, p. 285-296, 2006.
MACEDO, Elizabeth; MILLER, Janet. Por um currículo “outro”: autonomia e relacionalidade. Currículo sem Fronteiras, 22: e1153, 2022.
MANNING, Erin. Políticas do toque: sentidos, movimento e soberania. São Paulo: GLAC, 2023.
PELÚCIO, Larissa. É o que tem pra hoje-os limites das categorias classificatórias e as possíveis novas subjetividades travestis. Stonewall, 40, pp. 111-136, 2011.
PINAR, William. Estudos curriculares: ensaios selecionados. São Paulo: Cortez, 2016.
RUFINO, Luiz; SIMAS, Luiz Antônio. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.
ROLNIK, Suely. Geopolítica da cafetinagem. São Paulo, 2018. [disponível em: https://www4.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Geopolitica.pdf acessado em: 11/06/2025]
SILVA, Tomaz Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
TRÓI, Marcelo. D. Teat (r) o Oficina, corpo dissidente na cena brasileira. Artivismos das dissidências sexuais e de gênero. Salvador, EDUFBA, 2019, pp. 41-55.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Atualização e contra-efetuação do virtual: o processo do parentesco. In: A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac & Naify, 2002, pp. 403-455.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O problema da afinidade na Amazônia. In: A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac & Naify, [1993] 2002, pp. 87-180.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Como Citar
Licença
Copyright (c) 2026 O autor detém os direitos autorais do texto e pode republicá-lo desde que a REBEH seja devidamente mencionada e citada como local original de publicação.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.
A submissão de trabalho(s) científico(s) original(is) pelas pessoas autoras, na qualidade de titulares do direito de autoria do(s) texto(s) enviado(s) ao periódico, nos termos da Lei 9.610/98, implica na cessão de direitos autorais de publicação impressa e/ou digital à Revista Brasileira de Estudos da Homocultura (REBEH), do(s) artigo(s) aprovado(s) para fins da publicação, em um único número da Revista, autorizando-se, ainda, que o(s) trabalho(s) científico(s) aprovado(s) seja(m) divulgado(s) gratuitamente, sem qualquer tipo de ressarcimento a título de direitos autorais, por meio do site da Revista, para fins de leitura, impressão e/ou download do arquivo do texto, a partir da data de aceitação para fins de publicação. Portanto, as pessoas autoras, ao procederem à submissão do(s) artigo(s) à Revista e, por conseguinte, à cessão gratuita dos direitos autorais relacionados ao trabalho científico enviado, têm plena ciência de que não serão remuneradas pela publicação de seu manuscrito no periódico, independentemente da seção.
A Revista encontra-se licenciada sob a Licença Creative Commons 4.0 Internacional, para fins de difusão do conhecimento científico, conforme indicado no sítio da publicação.
No ato da submissão de seus artigos à REBEH, as pessoas autoras automaticamente aceitam e concordam expressamente com os termos da licença, que se aplica a todos os manuscritos publicados por esta Revista.

