Viadagens Científicas:

Trejeitos bicha de (poder) fazer pesquisa

Autores

DOI:

https://doi.org/10.29327/2410051.8.23-81


Resumo

Querendo evidenciar e desestabilizar a colonialidade da produção científica, resisto, experimento, narro e discuto minha corporificação, como entendo com Donna Haraway (1995), na construção do movimento teórico-metodológico da minha dissertação de mestrado em educação, que me envolvi pesquisando crianças e infâncias de pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Intersexos (LGBTI), que intitulei de Baitolagem. Minha parcialidade como bicha e criança viada, diante do estudo, elaborou minhas curiosidades e seleções epistemológicas, como uma (po)ética da viadagem, que apresento. O babado que tensiono neste artigo, junto de teorias transfeministas, antirracistas e (contra)coloniais, é: Como a viadagem pode dar o truque em nossas pesquisas? Tendo como objetivo: Passar um cheque na colonialidade científica, por meio da Baitolagem, como (tre)jeito (possível) de enviadescer nossas pesquisas. Para isso, conto como virei Baitola desde criança, discuto como fiz ciência com ela e caminho para dar um fecho provocando mais truques (im)possíveis de/para nossas produções. Defendendo a viadagem como modo de nos relacionarmos com a produção de um conhecimento, que acontece por (po)éticas outras, devolve a imagem à dissimulação descorporificada, e colabora para dar fim à colonialidade da ciência como conhecemos e resistimos. Escrevendo para reflorestar e darmos (mais) pinta na ciência.  

Biografia do Autor

  • Guilherme Rafael Portela, Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG

    Meu nome é Guilherme Rafael Portela, às vezes Prof Gui, outras Prof Guilerme, ou Pedagogoo. Sou bolsista, trabalhador, filho de mãe, tenho me dedicado em produzir afetos e dignidades feministas porque a vida me exigiu, sou mais um ativista do movimento estudantil brasileiro, das lutas libertárias da população LGBTI+ e das lutas antirracistas e contracoloniais, são desses endereços e políticas que penso e escrevo como pesquisador. Meu corpo tem sido (re)feito pela identidade de uma bicha branca, sem deficiências. Escolho ser professor e cientista para ensinar e dizer de mundos possíveis, éticos e amorosos. Estudei em escolas públicas e tive a oportunidade de me formar em Pedagogia na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), na minha cidade natal. Fui bolsista de iniciação científica nessa graduação, teimando em pesquisar realidades sobre e para cultura(s) de gênero, sexualidade e outros marcadores que nossas vidas atravessam e produzem. Já fui estagiário de escola, professor do ensino fundamental 1 e pedagogo de escola pública. Atualmente tenho me dedicado em pesquisar-escrever-lutar sobre, com e para infâncias e crianças LGBTI, pintosas, criativas, babadeiras, libertárias, e suas experiências na vida e na escola. Sou mestre em educação pelo PPGE da UEPG, e doutorando no mesmo programa.

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Publicado

13-07-2026

Edição

Seção

Dossiê Temático: Dar fim a pesquisa como conhecemos

Como Citar

Viadagens Científicas:: Trejeitos bicha de (poder) fazer pesquisa. (2026). Revista Brasileira De Estudos Da Homocultura, 8(23). https://doi.org/10.29327/2410051.8.23-81