PRORROGAÇÃO DE PRAZO PARA O DOSSIÊ TEMÁTICO "SAPATÃO E PRETA!": CONEXÕES ENTRE IDENTIDADE POLÍTICA, PERFOMATIVIDADES DE GÊNERO E CORPOS RACIALIZADOS

2021-06-21

Ser uma mulher negra e sapatão é provar dupla e cotidianamente como as mulheres precisam lutar contra o racismo e o patriarcado para sobreviverem diariamente, além de provarem como esse “cis-tema” oprime o corpo das mulheres, sejam elas trans ou cis, impondo padrões específicos a partir do binarismo de gênero. Mulheres negras, indígenas e não brancas estarão ainda mais vulneráveis às violências e opressões, como nos informam os movimentos sociais, os dados estatísticos e as pesquisas interseccionais.

O modelo de feminilidade que é imposto às mulheres é o reflexo do binarismo, racista, heteronormativo e patriarcal, que busca submetê-las a um modo de existência que determina os usos do corpo, os tipos aceitáveis de comportamento, entre outras imposições idealizadas pela "cis-hetero-norma". A referência de feminilidade posta por esses padrões vislumbra como modelo a mulher cis, branca, magra, silenciosa, entre outras características que confirmariam sua existência "feminina".

O silêncio e a invisibilidade são marcas presentes na produção acadêmica, artística e literária sobre lesbianidades, da mesma forma em que se apresentam nas trajetórias subjetivas de mulheres que se reconhecem como lésbicas, sapatões ou sapatonas. Mesmo considerando que temos algum avanço neste campo da produção de conhecimento no Brasil, as hierarquias/desigualdades de raça, gênero e sexualidades que atravessam os campos discursivos ainda ofuscam os estudos sobre lesbianidades. A política do silenciamento e a invisibilidade imposta às mulheres lésbicas podem ser explicados, em parte, pela sua posição de enfrentamento das heteronormatividades no estabelecimento de suas relações afetivas e na recusa da incorporação de dadas performances/estereótipos de gênero. Entendendo a heteronormatividade como um sistema que naturaliza e hierarquiza as diferenças de gênero, sexo, mas também de raça e classe, quanto mais distantes do modelo de "feminilidade" que lhes é imposto, mais as mulheres lésbicas se tornam vulneráveis à violência, ao empobrecimento, ao preconceito e à discriminação.

Ainda que a crítica e o enfrentamento ao binarismo seja uma construção política e histórica dos movimentos feministas, de mulheres e LGBTQ+, que tradicionalmente recusam o determinismo biológico no que se refere às identidades e/ou performances de gênero e sexualidade, não é incomum que mulheres lésbicas que reivindicam outras perfomatividades de gênero, sejam afastadas da categoria “mulher” por não responderem ao padrão imposto, como corpos que fogem à "norma heterossexual", mesmo sendo atravessadas por estas em suas vivências, pois o que é dado como norma (ou normal) ainda é o padrão heterossexual de vivência.

Quando se foge do modelo heterossexual, quando se abre a caixa de “pandora”, então passe-se a ser vista ou percebida como "não-feminina" ou menos mulher, e, muitas vezes, não-mulher, por causa disso mulheres que tem uma performance diferente do que seria o padrão de feminidade ou feminilidade imposto lutam diariamente para serem vistas dentro da categoria mulher e passam por diversas situações de constrangimento.

A performance de gênero é diversa, não pode e nem deve estar relacionada exclusivamente com um estilo/roupa/modo de ser, a violência contra as mulheres que tem performances de gênero diversas sempre é maior quando são facilmente reconhecidas como lésbicas/sapatão na rua, e, como se vive numa sociedade racista, intensifica essa violência sobre o corpo de mulheres lésbicas negras.

Entender e visibilizar o corpo negro sapatão como diverso em suas performances e existências, político e corpo produtor de saberes, é qualificar suas demandas para o meio social, para que não seja visto apenas fora da categoria, mas dentro das diversidades do ser mulher.

Considerando o exposto até aqui, o dossiê “"Sapatão e preta!": conexões entre identidade política, perfomatividades de gênero e corpos racializados” tem como principal objetivo visibilizar os saberes, performances e as diversidades da mulher sapatona, privilegiando as mulheres cis e trans negras, bem como as discussões acerca  das múltiplas existências dos corpos com especificidades e interseccionalidades, entendendo que a performance de gênero para as mulheres não é somente a apresentada de forma rígida pela cis-hetero-norma, e sim, aquela que se entrelaça ao corpo da mulher.

Coordenação:

Elaine Nascimento – Assistente Social. Antirracista. Lésbica. Carioca.  Pesquisadora em saúde pública e Coordenadora Adjunta da Fiocruz Piauí. Doutora em Ciências pelo Instituto Fernandes Figueira /Fundação Oswaldo Cruz (2007). Líder do diretório de pesquisa Saúde, Interseccionalidade e Cidadania. Coordenadora dos grupos de estudos Afro, Ibero, Latino-Americano de Feminicídio-AILAF; Racismo, Vulnerabilidades, Potencialidades e Corpo Sapatão; Interseccionalidade, Patriarcado e Ciberfeminismo.  REGISTRADA no ORCID ID sob o n 0000-0002-1632-9148 negraelaine@gmail.com

 

Ana Cristina Conceição Santos - lésbica negra, cofundadora da Rede Nacional de Negras e Negros LGBT. Licenciada em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (2003), mestrado em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (2008) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (2015). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas/Campus do Sertão. Nessa mesma instituição coordenou o curso de Pedagogia; (2017-2019) coordenou o Observatório da Diversidade Étnico-racial, gênero e sexualidades (PIBIC/NUDES/UFAL) (2017-2019); coordenou o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência do curso de Pedagogia (Pibid Pedagogia)/MEC-CAPES no período de 2017 a 2019. É professora pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Diversidade e Educação do Sertão Alagoano (NUDES).

 

Marcela Amaral - Professora Adjunta da Universidade Federal de Goiás, com atuação na Faculdade de Ciências Sociais. Doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília, com tese defendida na linha de pesquisa de Violência, Gênero e Cidadania, e mestrado em Sociologia pela mesma Universidade. Foi professora na Universidade Federal Rural do Semi-Árido - UFERSA (2011- 2014) atuando nas áreas de Sociologia, Educação, Gênero, Ciência e Tecnologia e coordenando a criação do curso de Licenciatura em Educação do Campo. Integra o Ser-Tão - Núcleo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Gênero e Sexualidade da Faculdade de Ciências Sociais, onde também é Coordenadora do curso de Licenciatura em Ciências, do PIBID Ciências Sociais e do grupo de estudos em Gênero e Diferenças na Educação. No âmbito da Sociedade Brasileira de Sociologia é a atual Coordenadora do Comitê de Pesquisa de Gênero e Sexualidade.

 

Luara Dias Silva - Lésbica, assistente social, idealizadora da Coletiva Lésbica Piauiense. Possui graduação em Serviço Social pela Faculdade Santo Agostinho de Teresina (2015). Mestranda em Políticas Públicas na Universidade Federal do Piauí.

 

Prazo de envio de trabalhos: 31 de julho de 2021.

Previsão de publicação: segundo semestre de 2021