A ciência que vigia o berço: diferentes leituras de “saúde” frente a crianças trans e crianças intersexo

Autores

  • Amanda de Almeida Schiavon Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  • Sofia Favero
  • Paula Sandrine Machado

Resumo

Resumo: o objetivo deste artigo é analisar como a categoria “infância” produz arranjos distintos no momento em que passa a ser articulada ao gênero. Propõe, então, refletir sobre as maneiras que tanto transexualidade quanto intersexualidade disputam uma agenda infantil, relacionada à produção de demandas, bandeiras e limites. Busca-se compreender como tais atravessamentos informam aproximações entre crianças trans e intersexo, mas também momentos de bastante colisão política. Portanto, considera emergente uma discussão capaz de levar em conta os riscos de uma homogeneização da diferença na infância, apontando para a necessidade de uma perspectiva ética acerca das múltiplas especificidades em saúde que são destinadas aos primeiros anos de vida.

Biografia do Autor

Amanda de Almeida Schiavon, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, UFRGS.

Sofia Favero

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, UFRGS.

Paula Sandrine Machado

Professora do Departamento de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, UFRGS.

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Publicado

2020-08-31

Edição

Seção

Dossiê Temático: Tornar-nos Criança: Auto-Etnografias, Cuidados e Reparações