Do digital ao ficcional: a abjeção do feminino pulsional na manosfera e em O País das Mulheres

Autores

DOI:

https://doi.org/10.59917/x3k1vt61


Palavras-chave:

abjeção; patriarcado; manosfera.

Resumo

O presente estudo investiga a tensão entre a ascensão do poder político feminino e as reações de repulsa visceral do sistema patriarcal. Estabelecemos um diálogo interdisciplinar entre a narrativa utópica de Gioconda Belli em O País das Mulheres, a teoria psicanalítica da abjeção e do semiótico formulada por Julia Kristeva, o dialogismo de Mikhail Bakhtin e a análise do discurso de Dominique Maingueneau. Nosso objetivo principal consiste em demonstrar como a emergência do feminino pulsional na esfera pública desestabiliza a Ordem Simbólica tradicional, provocando respostas violentas tanto no plano ficcional quanto no digital contemporâneo. Metodologicamente, realizamos uma leitura textual analítica e comparativa, articulando episódios centrais do romance de Belli às manifestações misóginas da chamada "manosfera" (comunidades incel, Red Pill e grupos antifeministas). Identificamos que a fundação do Partido da Esquerda Erótica (PEE) e o atentado contra a líder Viviana Sansón materializam a irrupção do Semiótico no poder estatal, espelhando os ataques coordenados contra lideranças femininas na atualidade. Concluímos que a hostilidade antifeminina não representa mero desacordo partidário, mas um sintoma de desordem psíquica e estrutural do patriarcado diante da perda do controle monopolista sobre os corpos e a linguagem política.

Referências

ALMEIDA E TASCA, Mariana Silvério. Machismo high-tech: a objetificação da mulher como instrumento de garantia de sua submissão na era digital. Revista Humanidades em Diálogo, v. 11, n. 1, p. 181-193, 2022.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Trad. Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BASTOS, Caroline Ayala de Carvalho. Vulnerabilidade de gênero na internet: o machismo no ambiente digital. 2020. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2020.

BELLI, Gioconda. O País das Mulheres. Trad. Ana Resende. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2024.

KRISTEVA, Julia. Poderes do Horror: Um Ensaio sobre a Abjeção. Trad. Niza de Castro. Lisboa: Edições 70, 1982.

LERNER, Gerda. A Criação do Patriarcado: História da Opressão das Mulheres pelos

Homens.

MAINGUENEAU, Dominique. Discurso e Análise do Discurso. Trad. Sírio Possenti. São Paulo: Parábola, 2015.

MARTINS, Paula Gruman. A Norma do Falo e a Abjeção da Mulher na Psicanálise. Revista Subjetividades, v. 21, n. 1, p. 1-12, 2021.

SANTOS, Ana Cristina dos. Revisões do passado, reconstruções do presente: discurso feminino e história nas obras de Gioconda Belli. Itinerários, Araraquara, n. 41, p. 199-216, jul./dez. 2015.

ZARATIN, Daniele Aparecida Pereira. Perspectivas do insólito ficcional: uma análise dos romances de Gioconda Belli e María Amparo Escandón. 2019. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2019.

ZUMTHOR, Paul. A Letra e a Voz: A Literatura Medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Publicado

2026-11-05

Como Citar

Do digital ao ficcional: a abjeção do feminino pulsional na manosfera e em O País das Mulheres. Polifonia, [S. l.], v. 33, n. 62, 2026. DOI: 10.59917/x3k1vt61. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia/article/view/21111. Acesso em: 6 nov. 2026.