Vestígios de uma educação popular: análise filológica e social de um mapa de alunos de Cachoeira de 1847
DOI:
https://doi.org/10.59917/rpveey27Palavras-chave:
Filologia, Educação, Pretos e PardosResumo
Neste artigo faremos a análise filológica de um Mapa de aluno de 1847, produzido por Padre Manoel Joaquim d’Azevedo, professor de primeiras letras da cidade de Cachoeira (BA), no século XIX. A partir da materialidade e do conteúdo dos manuscritos, buscou-se compreender as práticas de escrita e leitura escolar, os traços linguísticos e sociais registrados no documento, bem como indícios do funcionamento da educação oitocentista, evidenciando sujeitos históricos e suas condições de acesso ao ensino. A pesquisa se ancora nos pressupostos teóricos e metodológicos da Filologia (CAMBRAIA, 2005; GONÇALVES, 2017; 2020; 2025; GUMBRECHT, 2021; SPINA, 1994; TOLEDO, 2020), da Paleografia Crítica (PETRUCCI, 2002) e da História Social da Cultura Escrita (CASTILLO GÓMEZ, 2003; GALVÃO, 2010). Nesse artigo, aborda-se a perspectiva da Filologia como geradora de desejos de presença, dialogando com os aspectos paleográficos, em relação ao suporte, à materialidade e à edição semidiplomática do manuscrito; sendo conduzida por abordagem qualitativa e quantitativa, com base na análise documental e histórica. Os resultados da análise do Mapa revelam que um número expressivo de estudantes era composto por crianças pardas e negras, oriundas de famílias com baixo poder aquisitivo. O Mapa registra ainda informações sobre vacinação, possibilitando traçar um perfil sanitário e social dos discentes. A permanência desses alunos na escola, em meio às adversidades mencionadas nos manuscritos, revela a educação como possibilidade de prática de resistência no período. Este trabalho ressalta, portanto, a relevância do documento na salvaguarda de dados que testemunham práticas sociais invisibilizadas ao longo da história.
Referências
APEB. Arquivo Público do Estado da Bahia. Colonial. Maço 1269 – Correspondência recebida da câmara de Cachoeira.
APEB. Arquivo Público do Estado da Bahia. Colonial. Maço 3998 – Mapas de Alunos 1846.
BAGNO, M. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
BRASIL. [Lei de 15 de outubro de 1827]. Lei de 15 de outubro de 1827. Manda crear escolas de primeiras letras em todas as cidades, villas e logares mais populosos do Imperio. Rio de Janeiro, [1827]. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-38398-15-outubro-1827-566692-publicacaooriginal-90222-pl.html. Acesso em: 10 fev. 2026.
CAMBRAIA, C. N. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
CALVET, Louis-Jean. As políticas linguísticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
CASTILLO GÓMEZ, A. Historia de la cultura escrita: ideas para el debate, Revista Brasileira de História da Educação, Campinas, n. 5, 2003.
GALVÃO, A. M. de O. História das culturas do escrito: tendências e possibilidades de pesquisa. In: MARINHO, M.; CARVALHO; G. T. (Orgs.). Cultura escrita e letramento. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010. p. 218-243.
GONÇALVES, E. C. B. A Filologia e o estudo de Requerimentos do Arquivo Histórico Ultramarino. Filologia e Linguística Portuguesa, [S. l.], v. 22, n. Especial, p. 75-92, 2020. DOI: 10.11606/issn.2176-9419.v22iEspecialp75-92. Disponível em: https://revistas.usp.br/flp/article/view/166321. Acesso em: 15 fev. 2026.
GONÇALVES, E. C. B. Edição de textos sobre a escravização e a resistência negra. In: GONÇALVES, E. C. B. (org.). Filologia e História: perspectivas dialógicas e contemporâneas. 1. ed. Aracaju, SE: Criação Editora, 2025, p. 143-170. URI: doi.org/10.62665/cried-978-85-8413-605-6. Disponível em: https://editoracriacao.com.br/filologia-e-historia-perspectivas-dialogicas-e-contemporaneas/. Acesso em: 15 fev. 2026.
GONÇALVES, E. C. B. Leitura crítico-filológica de Resolução de 1822: revoltas, vigilância, violência e punição na Bahia do século XIX. Filologia e Linguística Portuguesa, São Paulo, v. 20, n. 2, p. 153-174, ago./dez. 2018. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2176-9419.v20i2p153-174. Acesso em: 20 mar. 2026.
GONÇALVES, E.C.B. Léxico e história: lutas e contextos de violência em documentos da Capitania da Bahia. ABRALIN. 2017; 16(2):191-218. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5380/rabl.v16i2.52006. Acesso em: 15 fev. 2026.
GUMBRECHT, H. U. Os poderes da filologia: dinâmica de conhecimento textual. Rio de Janeiro: Contraponto, 2021.
HOCHMAN, G.; SOUZA, C.M.C. Vacina e vacinação antivariólica na Bahia oitocentista. Ciência & Saúde Coletiva, 27(9):3429-3440, 2022 https://doi.org/10.1590/1413-81232022279.05082022. Acesso em: 15 fev. 2026.
MAIA, C. Linguística Histórica e Filologia. In: LOBO, T.; CARNEIRO, Z.; SOLEDADE, J.; ALMEIDA, A.; RIBEIRO, S. (orgs.). Rosae: linguística histórica, história das línguas e outras histórias. Salvador: Edufba, 2012.
MATTOS E SILVA, R.V. Ensaios para uma sócio-história do português brasileiro. São Paulo: Parábola, 2004.
PERINI, M. A. Gramática do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.
PETRUCCI, A. La Ciencia da la Escritura: primera lección de paleografia. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2002.
PETRUCCI, A. Storia della scrittura e della società. Alfabetismo e cultura scritta, nuova serie, n. 2, p. 47, 1989.
SANTOS, J. T. De pardos disfarçados a brancos pouco claros: classificassões raciais no Brasil dos séculos XVIII -XIX. Afroásia. V.32, p. 115-137, 2005.
SHARPE, J. A história vista de baixo. In: BURKE, P. (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. 2 ed. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.
SPINA, S. Introdução à edótica: crítica textual. 2 ed. revisada e atualizada. São Paulo: Ars Poetica/ Edusp, 1994.
STEPHANOU, M.; BASTOS, M. H. C. (orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil. Vol. II: século XIX. Petrópolis RJ: Vozes, 2005.
TOLEDO NETO, S. A. (Orgs.) Por minha letra e sinal: documentos do ouro do século XVII. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.
VIDAL, D. G. Mapas de freqüência a escolas de primeiras letras fontes para uma história da escolarização e do trabalho docente em São Paulo na primeira metade do século XIX. Revista Brasileira de História da Educação, v. 8, n. 2 [17], p. 41-67, 7 fev. 2012.
