Objeto cultural e memória coletiva em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo

Autores

Palavras-chave:

herança, singularidade, sujeito.

Resumo

Nas obras de Conceição Evaristo, a memória atualiza dores e humilhações as quais os negros, vindos do continente africano, sofreram, e seus descendentes continuam a sofrer. Enfoca, também, o espírito de resistência dos afrodescendentes. Neste trabalho, a partir do romance Ponciá Vicêncio, questionamos como o barro funcionou na constituição e transmissão de memória coletiva dos negros. O objetivo foi compreender a modelagem e as peças de barro como objeto cultural portador de memória coletiva ao revigorar a herança do passado e impulsionar o reencontro da família Vicêncio. Em termos metodológicos, como pesquisa bibliográfica, foi lida e relida a obra literária para compreensão e identificação de palavras como barro, argila, artesanato, cerâmica e os contextos em que são citadas nos círculos percorridos por Ponciá. Repetidas em todo o texto, as palavras se relacionam à matéria-prima, massa da terra, barro pronto a ser modelado e transformado, de maneira singular e com assinatura própria, em peças utilitárias e enfeites para usar no cotidiano, presentear ou vender. Mas também funcionam como metáfora do pote - grande útero acolhedor e matéria-prima da criação do avô-homem-barro, além de inspiração para modelagem de elos para ligar passado-presente-futuro. Na singularidade do sujeito, o objeto cultural reuniu vozes dos antepassados em direção a um novo jeito de existência. O romance contribui, assim, para a valorização de raízes identitárias e objetos de memória, como também evidencia a importância da ação-evento e assinatura de sujeitos responsivos na defesa do povo negro na sociedade brasileira.   

Biografia do Autor

MARIA DE FÁTIMA ROCHA MEDINA, Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) Centro Universitário Luterano de Palmas (Ceulp)

Professora da área de Letras, no Ceulp. E atua na Pró-Reitoria de Extensão, na área de cultura, na Unitins.

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2020-10-05

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