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Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 268PRESERVAÇÃO DOS SABERES TRADICIONAIS NO EXEMPLO DO PROJETO ERVA MEDICINAL FARMÁCIA VIVA: ESCOLAFLORESTAN FERNANDES,EM CLÁUDIA(MT)PRESERVATION OF TRADITIONAL KNOWLEDGE IN THE EXAMPLE OF THE PROJECT ERVA MEDICINAL -FARMÁCIA VIVA: SCHOOL FLORENTAN FERNANDES,IN CLÁUDIA(MT)Patrícia Rosinke1Maria Luiza Troian2Edna Lopes Hardoim3Germano Guarim Neto4RESUMOEste artigo apresenta uma pesquisa que visou conhecer e identificar a importância que tem,na comunidade local, o Projeto Ervas Medicinais: Farmácia Viva, desenvolvido na Escola do Campo do Assentamento de Reforma Agrária da região Norte do Mato Grosso.O Assentamento 12 de Outubro foi organizado pelo Movimento dos TrabalhadoresRuraisSem Terra (MST)em 2010.A pesquisa foi de abordagem qualitativa e teve como sujeitos dois professores e duas turmas de alunos da escola,envolvidos diretamente no projeto.O objetivo estava em conhecera dinâmica de desenvolvimento assim como compreender a importância desse projeto na preservação de saberes populares sobre plantas e na saúde da comunidade local. Para a produção de dados deste trabalho, utilizaram-se entrevistas semiestruturadas com os professores e roda de conversa com os alunos.Mesmo diante dos desafios para melhorias, por meio desta pesquisa, verificamos que o projeto mostrou-se com grande potencial paraodesenvolvimento dehabilidades que permitem conscientização em prolda preservação dos saberes populares que as famílias do assentamento têm.Palavras-chave: saberespopulares, plantas medicinais, Movimento dos TrabalhadoresRurais Sem Terra.ABSTRACTThis article presents a research that aimed to know and identify the importance of the Medicinal Herbs Project: live pharmacy, developed in the Field School of Agrarian Reform Settlement in the northern region of Mato Grosso. The Settlement 12th October was organized by the Landless Rural Workers Movement (MST),in 2010. The research was qualitative approach and had as subjects two teachers and two classes of school students, directly involved in the project. The objective was to know the dynamics of development as well as to understand the 1Mestre em Educação nas Ciências(UNIJUI),doutoranda em Educação em Ciências e Matemática (REAMEC), professora na Universidade Federal de Mato Grosso. E-mail: patirosinke@yahoo.com.br2Mestre em Ciências Sociais(UNISINOS), pedagoga da Escola Técnica Estadual de Sinop/SECITEC-MT. E-mail: marialtroian@gmail.com3Doutora em Ecologia e Recursos Naturais(UFSCAR), docente na REAMEC. E-mail: ehardoim@terra.com.br4Doutor em Ciências Biológicas (Botânica)(INPA), docente na REAMEC. E-mail: guarim@ufmt.br
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 269importance of this project in the preservation of popular knowledge about plants and the health of the local community. For the production of data of this work, we used semi-structured interviews with the teachers and a conversation with the students. Even in the face of the challenges for improvement, through this research, we verified that the project showed great potential for the development of skills that allow awareness for the preservation of the popular knowledge that the families of the settlement have.Keywords:popular knowledge, medicinal plants, movement of landless workers.1 INTRODUÇÃOEste artigo apresenta uma pesquisa realizada na Escola do Campo do Assentamento de Reforma Agrária da região Norte do Mato Grosso, que visou conhecer e identificar a importância que tem,na comunidade local, o Projeto Ervas Medicinais: Farmácia Viva.Noperíodo em que realizamos esta pesquisa, o projeto em estudo já estava em seu terceiro ano de desenvolvimento e, ao planejarmos as ações in loco,definimos como principais objetivos identificar as contribuições pedagógicas e fatores motivacionais para que os professores da escola idealizassem e desenvolvessem este projetocom plantas locais,no âmbito da escola do Assentamento,e observar de que forma estavamlhedando continuidade visando,assim, identificar suas contribuiçõespara uma educação significativa e transformadorana vida dos alunos envolvidos.Diante dos objetivos a que nos propusemos, mais especificamente quanto a conhecer o projeto e identificar suas contribuições na preservação dos saberes tradicionais da comunidade do Assentamento, escolhemos apesquisa de abordagem qualitativa, cujossujeitosforam duas turmas de Ciências daescolae dois professoresenvolvidos diretamente no projeto. Para aprodução de dados deste trabalho,foi necessária a utilização de entrevistas semiestruturadas com os professores, visando aocontato ediálogo comeles ea realização de roda de conversa com os alunos. O projeto, objeto desta pesquisa, iniciou no ano letivo de 2016,com alunos do quartoe quinto anoda escola e continuou sendo desenvolvidoposteriormente.De acordo com a organização da escola, existe uma sala com alunos de quarto e quinto ano juntos, o que se chama de sala multisseriada. Em 2016, na sala havia 16 alunos e, em 2017, 14 alunos.O projeto faz parte da proposta pedagógica da escola que se fundamenta na Pedagogia da Libertação e da Autonomiade Paulo Freire, cuja proposta
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 270é que os alunos sejam sujeitos participativos e ativos na escola, que a escola seja espaço de referência e parte integrante da comunidade e o conhecimento emancipador e com função social.Assim, apresentamos inicialmente o Assentamento 12 de Outubro, bem como a Escola Florestan Fernandes, local em que estivemos presentes em três visitas no ano de 2018. Na ocasião, visamos conhecer o contexto local e o trabalho que os dois professores de Ciências desenvolvem com os alunose com a integração da comunidade como um todo; além disso, buscamos desenvolver nossa pesquisa a respeito do Assentamento, para analisar a importância queele tem quanto à manutenção de saberes tradicionais sobre as plantas medicinais.2 O CONTEXTO DA PESQUISAE A BASE TEÓRICAO contexto da pesquisa envolveuo Assentamento 12 de Outubro e a Escola Estadual do Campo Florestan Fernandes, local em que ocorre o projeto Erva Medicinal: Farmácia Viva. Como base teórica para construção do objeto de estudo e análise dos dados, trabalhou-secom a Pedagogia da Autonomia,numa perspectiva de educação transformadora de Paulo Freire(1997),a Pedagogia do Movimento dos Trabalhadores sem Terra e a relação com o saber de Bernard Charlot(2000).2.1O Assentamento de Reforma Agrária 12 de OutubroO Assentamento 12 de Outubro foi organizado pelo Movimento dos TrabalhadoresRurais Sem Terra (MST), em1985,no sul do Brasile atualmente apresentaabrangência nacional.O MST tem por objetivo a reforma agrária, que vai além da conquista da terra, por combater o latifúndio.Dentre os interesses do movimento,estão a produção de alimentos saudáveis, a educação emancipatória e transformadora, a formação política, humana, economia solidária, cooperativismo e agricultura familiar, conforme encontramos em “Quem somos” (no Portal MST MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA).A consolidação do MST, no Estado de Mato Grosso,tem como base histórica a ocupação da fazenda Aliança no município de Pedra Preta, em 1995. Em 2003, com
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 271apoio de professores da Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT)e sindicatos,as famílias de trabalhadores rurais do Movimentoorganizaram a primeira ocupação na regiãonorte do estado, em Sinop, na fazenda Agroquímica e,em 2004,ocuparam a fazenda Panorama, onde hoje é o Assentamento 12 de Outubro. Nos municípios de Sorriso, Sinop, Cláudia, mais ao norte do estado de Mato Grosso, cujo principal acesso via terrestreocorre pela rodovia BR163, a aproximadamente 400 Km da capital do estado (Cuiabá), há uma extensa área plana de terra fértil. Tal área é de interesse agropecuário anos, porém grande parte das áreas ainda pertenciam à União e deveriam ser destinadas à reforma agrária. Tratando-seda atração por estas terras, com a chegada dos latifundiários,também houve e ainda hoje há consequências ao meio ambiente em função dadevastação da floresta, causadainicialmente peloextrativismo da madeira. Com o passar de alguns anos, devido àescassez da madeira, a atividade foi tornando-se economicamente inviável, passando para agropecuária de corte e,atualmente,para oagronegócio desoja, milhoeoutros grãos; ação que acarreta em quase extinção de várias espécies de animais e plantas e destruição dos rios, com alto índice de agrotóxico. Em 2004, oMovimento (MST) iniciou a negociação da fazenda Panorama, para a consolidação do Assentamento 12 de Outubro, às margens da BR163, no município de Cláudia(MT), região da Amazônia Legal. Foi uma negociação feita pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) que resultou em uma ocupação pacífica. Porém, alguns dias após a ocupação, os assentados tiveram de se retirar em função de um processo judicial de reintegração de posse. Foram mais seis meses acampados às margens da BR163, com várias manifestações de luta e,em dezembro de 2007, com muita audácia, organização e resistência,as famílias do Movimento (MST)ocuparam a sede da fazenda, até que um ano depois a área foi decretada ao assentamento. O assentamento em questão possui uma área de 8.721,212hectares, distribuídosem 187 lotes de 12 ha; eo restante da área se configura em área de Reserva Legal (ARL) e de Preservação Permanente (APP), banhado pelo rio Panorama que deságua no rio Teles Pires. Devido à morosidade do INCRA, em 2009,oslotes foram parcelados pelas próprias famílias,porém até então essas famílias não receberamnenhuma forma de
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 272desenvolver a produção. Considerando que a área aberta era área de pastagem, sem recursos e maquinários,a produção fica reduzida e comprometida;salienta-se também que afalta deenergia elétrica (que chegou apenas em 2014) também é outro fator que comprometeu a consolidação da ocupaçãoe a produção agrícola.Assim, aconsolidação do assentamento resulta de muita organização, luta e resistência das famílias. Seguindo a filosofia do MST, as famílias se organizam e buscam alternativas de produção. Criarama Cooperativa dos Produtores Agropecuáriosda Região Norte do Estado deMato Grosso (COPERVIA),que desenvolvediversos projetoscom foco na organização produtiva, com destaque no Sistema Canteiros de Comercialização Sociossolidária Agroecológica(CANTASOL). Essa cooperativainiciou,em parceria com a Universidade Estadual (UNEMAT) e a escola do Assentamento, acomercialização dos produtosvia siteespecífico. Surgiu, também, o Coletivo de Mulheres Amazônia Livre, que conseguiuum barracão com cozinha industrial para produção de massas, doces e conservas. Assim, os assentados têm sua economia com base na coleta de castanha, da produção de hortaliças, leite e derivados, criação de frango, entre outros de base da produção familiar. 2.2Escola Estadual do Campo Florestan FernandesUma das preocupações semprepresentesno contexto do Movimento, em seus assentamentos, é a educação. Crianças, jovens e adultos precisam estudar. Assim, já nas primeiras semanas de acampamento,foramrealizadas reuniões paraa construção da escola do acampamento, que geralmente é feitade cobertura de lona. A partirdesses momentos,pessoasenvolvidas com a educação procurama secretaria de educação do município para fazer valer o direito do acesso e permanência na escola, no campo. Em 2007, ainda acampados às margens da BR163, os moradores haviam organizado o setor de educação. As crianças e jovens eram levadas para estudar emescola urbana, porém jásurgirano acampamento a primeira turma de alfabetização de Jovens e Adultos. Em 2008, seguindo a ideologia do MST, as famílias reivindicarama escola no assentamento e eles mesmos construíram a primeira estrutura física onde iniciaram as aulas com 15 alunos, como salas anexas de uma escola municipalde
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 273Claudia(MT). Em 2012,a escola passou a ser Escola Estadual do CampoFlorestan Fernandes. Atualmente, há 140alunos matriculadosnaEducação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos. Seu Projeto Pedagógico acompanha a Pedagogia do MST por entender que constitui a base de todo o processo de luta, de formação humana, uma educação transformadora. 2.3A Pedagogia do Movimento dos TrabalhadoresRurais Sem Terra (MST)A pedagogia do MST tem como base a pedagogia freireana, ou seja, uma pedagogia que abarca os princípios de Paulo Freire, dentre os quais a escola é um espaço de intencionalidades. Para esse movimento pedagógico, os alunos “nãocabem na escola”, mas a estabelecem com uma dimensão de espaço de formação de sujeitos humanos dosalunos, sujeitos de aprendizagem , formação que não começa e nem termina na escola.A aprendizagem transcende para a vida do aluno, a formação crítica, transformadora. Uma pedagogia da produção de sujeitos sociais, em que, conhecimentos estão atrelados à coletividade, através de processos políticos e socioculturais, que compõemsua dinâmica como produto e agente particular da sociedade. (CALDART, 2004, p.317.)Reforça-se o lugar das relações sociais nos processos de formação humana:na escola,o trabalho e as práticas produtivas ocupam um lugar central no processoeducativo, abreespaços de diálogos, questionamentos, inquietações, pesquisa, elaboração deprojetos, relaçõesque se estabelecem com novos saberes. Assim, na intencionalidade pedagógica do MST,a escola não é o centro do processo educativo, o processo educativo transcende o espaço da escola, envolvendo os espaços do viver, do trabalho, da relação com a terra, porém a escola mantém-se comoespaço de formação humana, espaço da comunidade, de fortalecimento de um projeto político de sociedade. Esselocal éum espaço em que o aluno se percebe como sujeito educativo, de produção de seres humanos que se constituam como sujeitos sociais.
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 2742.4A Pedagogia da Autonomia Paulo FreireUma das teorias que fundamentam a pedagogia doMovimento-os ensinamentos do educador Paulo Freire-ao trabalhar a Pedagogia da Autonomia, lembra-nos de vários elementos importantes para a construção do ambiente de aprendizagem.Segundo Paulo Freire, a escola tem a importante função de estimular achamada ‘curiosidade ingênua’ trazida pelosalunos, promovendo a ‘curiosidade epistemológicaentre esses.Talprocesso não acontece automaticamente, mas é no fazer, na participação, na experiência, na relação com os saberes que já possuem e que fazem sentido que os alunosse mobilizampara a construção de novos conhecimentos. Assim também, ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural.Levar o aluno a assumir-se como ser histórico, social, como ser pensante, comunicante, transformador, criado e“saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção(FREIRE, 1997,p. 57).Ensinar, para Freire, exige o respeito à autonomia de ser do educando e a convicção de que a mudança é possível, a assunção deque o aluno não é somente um objeto da história, e sim sujeito dela. Eleconstrói a escola, ele participa da organização do ambiente escolar, da busca por instrumentos para construção de conhecimentos, da pesquisa, da produção.Ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra. Não posso estar no mundo com luvas nas mãos, constatandoapenas. A acomodação em mim é apenas caminho para inserção, eimplica decisão, escolha, intervençãona realidade. Há perguntas a serem feitas insistentemente por todos nós e que nos fazem ver a impossibilidade de estudar por estudar. De estudar, descomprometidamente como se misteriosamente, de repente, nada tivesse a ver com o mundo, um lá de fora, e misterioso mundo, alheio de nós e nós dele. (FREIRE, 1997,p. 80)Ensinar exige curiosidade, sendo essa alicerçada na capacidade de tomar distância do objeto, avaliar, questionar, observar, instigar, criar hipóteses, comparar, perguntar, elaborar problemas, construir projeto, planejamento, fazer, agir, criar, produzir. É no diálogo entre professores e alunos que se constrói um ambientepropício
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 275para despertar a curiosidade, a pesquisa, para o planejamento de ações, na perspectiva da formação humana. 2.5Arelação com o saber BernardCharlotDe acordo com Charlot(2000), a relação com o saberé uma relação social com o saber. Relações de saber são as relações sociais do ponto de vista de aprenderfundadasentre as diferenças de saber. Médico e paciente, professor e aluno, pais e avós e crianças, cada um mantém uma relação com o saber, e todos estabelecem,nesta relação, relação de saber. As relações de saber se estabelecem nas relações sociais, de grupos sociais diferentes. Fazer parte de certo grupo é o que estimula, ou obriga, tais pessoas a estabelecer relação com certas formas de saber. Cada um ocupa uma posição na sociedade, que é também uma posição do ponto de vista do aprender e do saber. O aluno precisa estar mobilizado para que se estabeleça a relação com o saber escolar. No casodesta pesquisa, a relação de saberes com pessoas que possuíam saberes populares sobre as plantas medicinais. Desta forma, a partir desses saberes, foi mobilizada a relação com os saberes formais, tais como os nomes científicos das plantas,aclassificação das plantas, entre outros,envolvendo cálculos matemáticos, formas geométricas, reações químicas. Já a relação com o saberé a relação desta pessoa com o aprender, que se constrói em relações sociais de saber, na relação com o mundo, com osoutros e consigo mesmo. É importante lembrar-se de que a construção de conhecimentos é uma ação subjetiva da pessoa na sua relação com o mundo, com os outros e consigo mesma: como mundo, nas suas vivências, observações da natureza, dos fatos, das coisas; com os outros, nas relações sociais com a família, amigos, comunidade, escola, entre outros; e consigo mesma, com as açõescognitivas, na relação com os conhecimentos que já possui, comparações, classificação, seriação, negação, raciocínio lógico, enfim,ações subjetivas, próprias e específicas de cada pessoa, mas que precisamestar mobilizadaspara aprender e estabelecer a relação com o saber.
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 2763 METODOLOGIA DA PESQUISAPara o desenvolvimento metodológico, utilizou-se da pesquisa de abordagem qualitativa, que se apresenta neste texto na forma descritiva, cujo objetivo principal esteve em compreender a importância deste projeto para alunos, comunidade escolar e famílias dos alunos, para a preservação dos saberes tradicionais desta comunidade de assentados,bem como sua contribuição na melhoria das aprendizagens escolares e nas relações pedagógicas que as interações proporcionaram.Ao se optar pela pesquisa qualitativa,busca-seexplicar o porquê das coisas, exprimindo o que convém ser feito, “mas não se quantificam os valores e as trocas simbólicas nem se submetem à prova de fatos, pois os dados analisados são não-métricos (suscitados e de interação) e se valem de diferentes abordagens” (GERHARDT;SILVEIRA, 2009, p. 32). Para o levantamento de dados, juntoaos sujeitos, optou-se pelo uso de entrevista semiestruturada, sendo uma forma de organizar uma conversa face a face com os professores colaboradores bem como para nortear um diálogo com os alunos, de forma organizada, procurando direcionar as conversas para as questões que tínhamos interesse, sem deixar de considerar eventuais adições às conversas. Para Moreira e Caleffe (2008,169),esse tipo de técnica consiste de perguntas pré-elaboradas, envolve um grau de negociação entre o entrevistador e os participantes e conferecerta liberdade visto que, pornão serfechada, contempla itens a serem discutidos na entrevista, e permite que o entrevistador seja livre para deixar os entrevistados desenvolverem as questões no seu tempo, o quepossibilitamaior abertura no diálogo. Para as análises,os dados obtidos foram transcritos e organizados, buscando-se a complementaridade dos dados da conversa realizada com os professores e com os alunos,de acordo com os objetivos decompreendera dinâmica do projeto e destacar quais foramas contribuições deste projeto para a preservação dos saberes tradicionais da localidade.Dessa maneira, produziram-se previamente roteiros para alunosdas turmas de Ciências Naturais, de quarto e quinto ano, que desenvolveram o Projeto,e para dois professores de Ciências dessasmesmas turmas, na forma de entrevistas semiestruturadas. As conversas com os alunos envolveramaqueles da Turma Aque
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 277chamamos de primeira turma do projeto (Turma A), e aquelaaque chamamos de turma atual (Turma B). Assim, pensando em estabelecer alguns comparativos entre ambas, que pudessem contribuir para as perspectivas de continuidade, apresentadas pelos professores,as conversas com as turmas foram gravadas apenas em áudioe,posteriormente, transcritasna íntegra. Já as conversas comosprofessores foram registradas em anotações em caderno de campo.4 RESULTADOS E DISCUSSÕESO projeto Erva Medicinal: Farmácia Viva, que se constitui objeto desta pesquisa, iniciou na escola no ano de 2016 e está em andamento até então. Para o primeiro contato, a expectativa esteve em compreender o contexto geral da escola e do projeto; já na segunda visita, foirealizada uma entrevista/conversa com os dois professores envolvidos no projeto: a professora que idealizou o projeto com os alunos no ano de 2016 e o professor que desenvolve o projeto com os alunos de quarto e quinto ano do ano letivo de 2018, e roda de conversa com os alunos. O Projeto em questão foi idealizado pela professora de Ciências Naturais da turma de quarto e quinto ano da escola do Assentamento, no início do ano letivo de 2016, enquanto discutiam acerca de viroses mais comuns entre os alunos, como a gripe;então, a participação dos estudantes em relatar remédioscaseiros feitos com plantas dos próprios quintais, geralmente, baseia-se em receitas de seusavósou pais.Assim, o projeto envolveu entrevistas com os familiares e vizinhos, bem como o cultivo das mudas na própria escola. Além disso, em aulas de Ciências, os alunos confeccionaram cadernos de campo, onde anexavam parte da planta seca utilizada, e faziam a complementação científica, pela busca nome/identificaçãoe propriedades, e descreviama forma de preparo do remédio feitoa partir da planta e arespectiva forma de utilização. 4.1 Relatos da participação no projeto apartir do diálogo com os professoresComo uma forma organizada de gerar dados mais concretos para este texto, foi elaborado um roteiro do tipo entrevista semiestruturada,para a conversa com os professores, que segue na tabelaabaixo:
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 278Tabela 1-Questões para dialogar com os professores/autores do ProjetoNúmeroQuestão1O que o Projeto representa para os alunos, na visão de vocês?2Como foi, na avaliação de vocês, o Projeto: dificuldades, perspectivas, participação dos alunos, para além dasaprendizagens escolares, o que significou para a comunidade?3Como ele contribuiu no processo das aprendizagens escolares (na Biologia, Matemática,...)?4Que relações pedagógicas o Projeto possibilitou para alunos, professores e comunidade escolar?Fonte: Da Metodologia produção de dados das escritoras.Durante o diálogo, os dados foram anotados e passam a ser descritos. Algumas informações iniciais foram obtidas antes do início do enfoque às questões,tais como: o projeto teve inícioem 2016com uma turma de quarto e quintoano do Ensino Fundamental, com um total de 16 alunos;e,no anode 2018,a turmateve outros 14 alunos trabalhando no projeto. São alunosfilhos das famílias assentadas, estão devidamente matriculados na escola local(escola municipal de Cláudia/MT)e ingressam mediante matrícula.Paracompreendermos as contribuições do Projeto desenvolvido pelos dois professores, nas aulas de Ciências Naturais, junto às turmas de quinto e sexto ano da escola do Assentamento, marcamos uma visita à escola, em que agendamos uma conversa na forma de entrevista semiestruturada com os professores. Dessa forma, houve um diálogo que nos trouxe um conhecimento maior sobre o Projeto das Plantas Medicinais. A conversa foi realizada com tranquilidade, as respostas obtidas para cada questão foram registradas em caderno de campo. Seu relato consta aseguir.Ao fazermos a primeira questão(Q1),as respostas foram de que o desenvolvimento do Projeto desperta nos alunos uma motivação paraa criatividade, a curiosidade, tanto que o nome do Projeto foi dado pelos alunos;instiga-os a buscarem novos conhecimentos sobre as plantas que muitos deles não conheciam, embora já as utilizassem em suas casas. O projeto também proporcionou maior diálogo familiar, até mesmo nosperíodos de férias, quando eles iam passear emcasa deseus familiares, acabavam trazendo novidades com relação aos saberes sobre as plantas medicinais dos quintais dosparentes.Com relação à segunda questão (Q2), as respostas sobre as dificuldades foramprincipalmentequanto ao cultivo das plantas na escola. Mencionaram que algumas mudas foram mal tiradas,houveerrosna manutençãoeirrigação, e que o período das
Revista REAMEC, Cuiabá -MT, v. 7, n. 1, jan/jun 2019, ISSN: 2318-6674Revista do Programa de Doutorado da Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemáticahttp://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamecPágina | 279férias longas, infelizmente,causou a morte de mudas;porém, várias ainda permanecem plantadas nos pneus que ornamentam o pátio da escola, na perspectiva de serem levadas à horta, ainda neste ano.Na sala de aula, as dificuldades principais estavam entre os próprios professoresque, por não conhecerem todas as plantas,precisavam buscar as informaçõespara trabalhar com os alunos. Isso era feito compesquisas na internet, no ambiente escolare, considerando que a maioria dos alunos não tem acesso àinternetem suas casas, aos poucos conseguiam catalogar as plantas pelo nome científico e popular, descrever suas utilidades e princípios medicinais, além da dose e modo de preparo.Para as informações sobre modo de preparo, indicação e nome popular, a principal fonte de pesquisaforam os familiares e membros da comunidade escolar. Quanto às perspectivas,falou-se na mudança das plantas para a horta escolar e na sua ampliação ainda neste ano. Os professoresdisseram que a participação dos alunosé boae que,inicialmente,o projeto fora pensado para ser desenvolvido na educação de jovens e adultos, porémacabou iniciando com as turmas de quarto e quinto ano; fato que avaliaram ter sido positivo,pelo envolvimento das crianças com o projeto e estudos relacionados. Observaram que, nas reuniões de pais, muitos falavam do projeto, reparavam as plantas no quintal da escola, estavam motivados. Isso gera boas perspectivas para a continuidade do trabalho. Sobre a terceira questão (Q3), com relação aos conhecimentos escolares, houve maior desenvolvimento das linguagens, principalmente da escrita, envolvendo nomescientíficos e a própria organização do Caderno de Campo de cada aluno. Na Biologia,também houve maior interesse e,na Matemática, quando se trabalhavamasproporções, doses das plantas e modo de consumo.Na quarta questão (Q4)sobre as relações pedagógicas, mencionou-se maior diálogo em casa, com familiares. Também no espaço escolar, quando fizeram entrevistas,com os colaboradores da escola em geral, sobre as plantas que estes costumam utilizar e suas finalidades, foi observado que algumas plantas já existem até mesmo no quintal e em torno da escola, como a fruta-pão(Artocarpus communis), que alguns já tinham usado para curar os chamados “furúnculos”.Também houve bom engajamento dos alunos no cuidado com as plantas;por exemplo, fizeram uma escala para cuidar e irrigarno período de seca e de férias e foram
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