METÁFORAS CRIATIVAS

Aprender a aprender o processo de aprendizagem do estudante visual (surdo)

Metáforas criativas: Aprender a aprender el proceso de aprendizaje del estudiante visual (sordo)

Anderson Simão DUARTE 1

RESUMO: Esta pesquisa nasceu das necessidades de entendimento frente à problemática contemporânea na compreensão do processo de aprendizagem do sujeito visual nas áreas das linguísticas, em especial a Língua Portuguesa. A problemática que norteia esta pesquisa se dá ao discurso paternalista e excludente de que o estudante visual (surdo) não tem a capacidade intelectual de aprender a escrita da Língua Portuguesa em conformidade as normativas da referida língua. Logo, não levando em considerações às dificuldades pedagógicas/metodológicas/didáticas dos docentes em nortear os processos de aprendizagens dos estudantes visuais nas séries iniciais ao ensino superior. As concepções de Mikhail Bakhtin e da Ecolinguística sustentarão os arcabouços desta pesquisa numa perspectiva qualitativa, dialógica e histórica.

PALAVRAS-CHAVE: Metáforas Criativas. Língua Portuguesa. Língua de Sinais.

RESUMEN: Esta investigación emerge de la comprensión frente a las necesidades de los problemas contemporáneos en la comprensión del proceso de aprendizaje de los sujetos visuales en las áreas lingüísticas, especialmente del idioma Portugués. El tema de la investigación es el discurso paternalista y excluyente de que el estudiante visual (sordos) no tiene la capacidad intelectual para aprender la escrita de la lengua portuguesa, de acuerdo a los reglamentos de ese idioma. Por lo tanto, no llevando en consideraciones a las dificultades pedagógicas, metodológicas e didácticas de los docentes en orientar los procesos de aprendizajes de los estudiantes visuales en las series iniciales asta la enseñanza superior. Las concepciones de Mijaíl Bakhtin y de la Ecolinguística sostendrán los bases de la investigación desde una perspectiva cualitativa, dialógica e histórica.

PALABRAS CLAVE: Metáforas Creativas. Lengua Portuguesa. Lenguaje de signos.





1. METÁFORAS: NÃO PERTENCE SOMENTE AOS INTELECTUAIS

O pensamento em que Metáforas são recursos linguísticos pertencentes aos intelectuais ou estudiosos da língua, muito pelo contrário. Pois as Metáforas são elementos cerne na construção dos enunciados, ela se desprende de regras, formatações, engessamentos ou normativas linguísticas em especiais as regras gramaticais.

A recomendação de Freud de se alternar metáforas com o maior frequência possível é uma tentativa de tirar proveito das vantagens das metáforas e, ao mesmo tempo, eliminar suas desvantagens: se cada filtro torna um aspecto visível, é só com a combinação de metáforas que se pode esperar a mais completa imagem da realidade. (DRAAISMA, 2005, pg. 45).

As Metáforas não podem surgir como panfletagem ou luzes coloridas a fim de beleza e indicativo de intelectualidade, as Metáforas são muito mais que elementos figurativos da língua. A compreensão, a interação e a imersão ao enunciados são os caminhos norteadores das Metáforas, ou seja, as metáforas constituem elementos imagináveis de sentidos.

No decorrer de minhas inquietações e questionamentos no processo de aprendizagem com sujeitos visuais2, percebi a ocorrência sistemática de comparações de experiências particulares com os conteúdos abordados no campo das ciências. Analogias em que, de primeira vista, não havia nenhumas relações coerentes com as temáticas abordadas das ciências naturais e Língua Portuguesa.

Entre muitas leituras e discussões linguísticas e gramaticais, atentei-me para as práticas regulares e surgimento de enunciados dos sujeitos visuais no andamento das práticas de sala, enunciados esses com características metafóricas ou sempre em estética de analogias. A cada Metáfora uma nova criação ideológica, conforme Bakhtin, as manifestações da criação é ideológica, logo todo sinal sendo ideológico é signo tem sua valoração sócio histórica.

A palavra funciona como elemento essencial que acompanha toda criação ideológica, seja ela qual for. A palavra acompanha e comenta todo ato ideológico. Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro, uma peça musical, um ritual ou um comportamento humano) não podem operar sem a participação do discurso interior. Todas as manifestações da criação ideológica – todos os signos não verbais – banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isolados nem totalmente separadas dele. (BAKHTIN, [1929] 2010, p. 38).

Com isso, percebi a constituição/criação de inúmeras Metáforas, aqui as categorizarei como Metáforas Criativa – MC, estas que têm uma característica ímpar comparada a outras Metáforas. As metáforas de uma foram ampla têm a responsabilidade e objetividade de representar o abstrato, são criadas coletivamente e assim usadas em vários contextos em conformidade com a intenção dos interlocutores. Já as Metáforas criativas têm a função única não da coletividade, mas da individualidade.

Os significados das palavras são formações dinâmicas, e não estáticas. Modificam-se à medida que a criança se desenvolve; e também de acordo com as várias formas pelas quais o pensamento funciona. (VIGOTSKI, [1923] 2011, p. 156).

Conforme Vygotsky, os sinais criados nas MC são dinâmicas pois concordam com o momento dos enunciados, nenhuma MC será engessada, mecânica ou amarrada a novos enunciados, ela é única, porém impar cronologicamente.

A cada momento de uma nova palavra/sinal que o sujeito visual usa na tentativa de ser compreendido frente a um dado enunciado, ocorre, nesse momento concreto, o desenvolvimento cognitivo, ou seja, um pensamento atrelado ao conteúdo de ciência ou LP. As metáforas são palavras, e estas acordadas em experiências de vida, em situações ímpares a cada usuário, a cada emissor de enunciado.

2. A INDIVIDUALIDADE DAS METÁFORAS CRIATIVAS

O uso das metáforas é um caminho subjetivo não deve ser instrumento forçado ou somente atrelado ao processo de ensino. As metáforas são recursos linguísticos e não estrangulação linguística. Porem, as metáforas são amplamente usadas no processo de aprendizagem.

As analogias e metáforas não necessariamente melhoram o ensino e a aprendizagem, mas a investigação tem demonstrado convincentemente que, quando usadas de forma eficaz, são valiosas ferramentas pedagógicas. (HOFFEMANN, 2012, p. 41)

A tese de doutoramento de Hoffemann trata do uso e presença de anáforas e metáforas em livros didáticos de biologia, a pesquisadora não menciona sujeitos visuais em suas abordagens.

As Metáforas podem ser utilizadas como potencial nos recursos didáticos, no entanto, há o perigo do uso exagerado das metáforas e a não compreensão dos próprios usuários envolvidos no processo de aprendizagem. O uso das Metáforas no processo de aprendizagens dos estudantes visuais não podem ser direcionadas ou enquadradas como instrumento de aprendizagens, afinal são processos subjetivos. As Metáforas ocorrem de forma espontâneas e não normatizadas como elementos enunciativos, caso contrário funcionarão como enfeites e panfletagens linguísticas sem vida e sem alma enunciativas. Em conformidade a Doménico de Masi ( 2000, pg. 116).

A subjetividade é um fenômeno complexo. Significa que eu possuo uma tal autonomia de julgamento, que posso me permitir uma escolha baseada nas minhas necessidades e recursos, e não no fato de pertencer a algum grupo.

As MC são produções interessantes, são estruturadas consolidadas frente as experiências sociais, pois provocam a curiosidade e a autonomia nas construções de novos sentidos e uma maneira simples de correlacionar as temáticas abordadas do concreto às ideias abstratas a fim de voltar ao estado concreto de ideias, usarei aqui uma analogia, ou seja, um efeito bumerangue. Assim como essa arma de arremesso tem seus perigos e cuidados ao ser lançada, pode trazer efeitos contrários aos esperados se lançada erroneamente ou abusivamente sem direção ou metas pré-acordadas.

As Metáforas Criativas são criadas pelo sujeito visual como forma de construção de uma analogia do material, conteúdo abordado à experiência de vida sem se preocupar se tal analogia é funcional para o outro ou não. As Metáforas Criativas não têm valoração coletiva nem servirão para outros enunciados, elas são impares e individuais, formando uma relação estreita de vida com o meio em que o sujeito visual faz parte, assim, as Metáfora Criativas corroboram com o conceito de Bakhtin (1929) de Enunciado Concreto.

3. EMOÇÃO: MOTIVAÇÃO DO APRENDER

Conforme Vilela (2002, p. 105) mostrar como a língua e as emoções humanas são frutos do seio cultural, das condições em que o homem vive e convive”, o uso das MC pelos estudantes visuais está representada pelo processo emocional em que os mesmos estão imersos, na aproximação linguística de seus contatos com novos saberes. Usar as MC está e faz parte do próprio sujeito visual, de sua cultura, de sua forma de agir e conceber o mundo dos saberes, ou seja, as MC representam os seus modos de ver e vivenciar as situações reais nos enunciados.

Um discurso diferenciado e provocativo dos meus participantes visuais em nossas interações teóricas e práticas aguçou-me a perceber uma certa autonomia linguística na própria Língua Brasileira de Sinais, sua L1. Quanto mais eu dava-lhes autonomia e liberdade de exemplificarem ou apontarem detalhes paralelos, mais e mais aumentavam os discursos com novas sinais, e aplicados de forma diferentes dos usados no cotidiano.

O discurso combina todas as potencialidades mencionadas, de modo a colocar à disposição dos falantes possibilidades praticamente infinitas de expressões, como infinita é a realidade de que se pode falar. O fato é que a autonomia relativa da língua faz com que ela permita aos membros da população de muito mais coisas do que as que se projetaram inicialmente na mente da população, ou seja, língua permite falar de muito mais coisas do que aquelas de que é reflexo. Além do mais, a capacidade da língua para formar novas palavras encontra-se praticamente em aberto. (COUTO, 2007, p. 153-154).

A autonomia dos discursos dos estudantes visuais motivou-me e levou-me a pesquisar as Metáforas Criativas que está no campo de novas estratégias de aprendizagem que atestam o papel ativo dos sujeitos visuais e suas criatividades, tornando clara a aprendizagem de ciências e da escrita da Língua Portuguesa - LP, criando novos sentidos e estes sentidos emergindo de suas histórias de vida. As MC como processo de entendimento dos conteúdos abordados em ciências como estratégias didáticas de escrita e compreensão da L2, a Língua Portuguesa pelos estudantes visuais.

Percebi, ao longo desta pesquisa, que os participantes visuais criam “comparações”, aparentemente “nada a ver”, e que estas ditas comparações também não eram compreendidas pelos seus pares. Estas comparações com formato de analogias, logo metafóricas foram fazendo sentido para mim na função de professor, após alguns debates e questionamentos sobre o porquê tais analogias. Segundo Trask (2011, p. 190) “Metáfora - o uso literal de uma forma linguística, utilizado como recurso pra chamar atenção para uma semelhança percebida. O uso literário das metáforas é antigo e bem estudado”.

Surge a minha tese com as Metáforas Criativas, sendo a principal maneira que os sujeitos visuais, em contexto dialógico, encontram para dar sentido aos conteúdos escolares. Elas emergem de suas histórias de vida singulares e também de suas interações com os colegas e o professor. Provocam, em geral, deslizamentos de sentidos, que são negociados, favorecendo a produção de sentidos próximos aos significados culturalmente aceitos.

4. DOCENTE: AQUELE QUE DESPRENDE DE PRÉ-CONCEITOS HISTÓRICOS

Conhecer o potencial estudantil do Outro é estar pronto a entender as variações deste processo de aprendizagem, as dificuldades, as inseguranças, os traumas, as experiências, as decepções, as vitórias, as conquistas e os anseios de novos saberes. Compreender o sujeito visual é estar aberto a mergulhar no caminho desconhecido e descobrir em parceria com o Outro os caminhos a serem percorridos rumo ao conhecimento no campo da Educação Paralela.

Segundo Draaisma (2005, p. 116). “a essência da alma é o pensamento; pensar é a respiração, o pulso da nossa vida espiritual, reflexão; contudo, pensar sobre o pensamento é a mais elevada atividade”. No momento em que há a provocação de um novo pensar, surge, portanto, a respiração mental, não somente metafórica, mas um momento de acesso ao desconhecido. E, neste momento, o participante visual provoca-se ao novo por meio das Metáforas Criativas.

A Língua Brasileira de Sinais é uma língua icônica, ou seja, constituída em sua totalidade por imagens manuais e/ou corporais, e revela-se, nesta língua, toda e qualquer informação concreta e abstrata, metafórica ou não. Esta língua não pode ser destituída no momento da relação estudante e professor, o respeito e valoração da imagem constituem, no sujeito visual, uma relação afetiva e emocional de intimidade frente aos conteúdos abordados.

A imagem é sempre símbolo e este se revela à consciência sob a forma de signo ou qualquer manifestação icônica, figuração material ou mental, aspectos imprescindíveis e necessariamente notáveis para que se perceba a profundidade dos sentidos. (COUTO, 2014, p. 69).

Conforme Couto, o sinal ou palavra são neutros, ou seja, a cada sinal a cada palavra teremos um novo signo uma nova valoração em detrimento ao contexto, a intenção, a intimidade, a relação afetiva, a esfera, o momento dentre outros fatores. O sinal é polissêmico e dinâmico, está sempre em constante procura de novos sentidos.

Iniciei a minha compreensão de Metáforas Criativas, tanto os participantes visuais quanto eu estávamos em processo de maturação cognitiva, ou seja, de entendimento do pensar do meu Outro e Eu no olhar do Outro, estávamos ali no processo de acordos de novos sentidos.

Criação da metáfora pode ser vista como a tentativa de compensar ou de eufemizar, por meio do exercício da transcendência de sentidos, não apenas a imperfeição da atividade de comunicação, mas também a da operacionalização do imaginário quando este se manifesta por meio da língua natural. (COUTO, 2014, p. 70).

As Metáforas criam novos signos, estes signos não são constituídos aleatoriamente, são formadores de pensamentos, de lógica de maturação linguística, ninguém é capaz de criar uma metáfora em uma língua se este sujeito não tem intimidade linguística, a criação das Metáforas reforçam o entendimento, dando amplitude imagináveis ao pensamento.

O signo não altera o objeto da operação psicológica mas transforma as conexões e as estruturas das funções psicológicas, determinando uma nova atividade instrumental no sujeito. (MOLON, 2010. P. 96).

Entender que o sujeito tem sua forma de aprender implica integrar a subjetividade no seio central e processual do sujeito, uma vez que este é um sistema complexo e não uma caixa de coisas que aprende.

Não posso deixar de citar, neste artigo, que as analogias e Metáforas foram e são usadas amplamente em todas as áreas do conhecimento, com personagens importantes que contribuíram com nossa sociedade moderna. vejamos: Charles Darwin faz a analogia “Árvore da Vida”, “O homem que tem coragem de desperdiçar uma hora do seu tempo não descobriu o valor da vida” e “Durante 2 bilhões de anos a terra "viveu" sem os seres humanos, não acho que ela precise de nós. Assim como o pai da química Antoine Lavoisier em algumas de suas celebres frases: “A mentira é a capacidade de destruir a confiança no coração do próximo”, Um homem sem uma mulher é como uma pássaro sem um avião” e ainda, Acreditem existe pessoas que ouve as suas ideias, e as rejeita, mas logo as copia !!!!”

Assim, também, como o líder politico Nelson Rolihlahla Mandela, ganhador do prémio Nobel da Paz em seus pronunciamentos e escritos sempre usou das metáforas para ampliar o carisma, e provocar a reflexão em sua plateia e leitores. Aqui cito algumas: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”, “Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge seu coração.”, e também, “Eu sou o capitão da minha alma.”

Os livros didáticos usados no Ensino Fundamental e Médio são recheados de forma surpreendente por metáforas, na tentativa de aproximar os conteúdos das ciências a uma realidade mais prática, por meio das analogias. Cito aqui frases extremamente comuns de uso diário e as pessoas não percebem que são recursos linguísticos dos livros didáticos, assim como: “coração é uma bomba”, “o sangue é um veículo, “os vírus são soldados do mal”, “os leucócitos são os nossos soldados de defesa”, “a seiva elaborada é o açúcar das plantas”, “o oxigênio é o nosso melhor amigo”, “a agua é rica em nutrientes”, “as caries são como bichos destruidores”, “a chuva traz riqueza ao solo”, e assim posso citar muitos outros exemplos práticos em que os livros didáticos nos trazem no processo de aprendizagem das ciências.

Assim, observo a cada metáfora uma marca, um estilo, uma história, uma experiência de quem a usa. Cada usuário apropria-se das metáforas ou anáforas para expressarem como meio de recurso linguístico as ideias ali acordadas e necessárias ao enunciado, assim ocorrem também com os sujeitos visuais.

5. METÁFORAS CRIATIVAS: UM PENSAMENTO ÚNICO E INDIVIDUAL

A cada sujeito visual uma história de vida, uma vivência familiar, um drama social, a doença assim representada pela medicina, o preconceito social, a vergonha da voz na oralização, a visão pelo olhar do Eu sobre os outros e outras inúmeras operacionalizações de fatos e relatos que serão discutidos nesta tese.

Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva. Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos enunciados precedentes de um determinado campo (aqui concebemos a palavra “resposta” no sentido mais amplo): ela os rejeita, confirma, completa, baseia-se neles, subentende-os como conhecidos, de certo modo os leva em conta. (BAKHTIN, 2006, p. 297).

Todos os participantes visuais têm relatos de traumas, medos e descontentamentos emocionais frente à Língua Portuguesa. No processo de aprendizagem, é impossível o sujeito visual despreender-se destes sentimentos históricos se o educador não contrapor, não ofertar novas conquistas de forma afetiva, destacando novas experiências a cada momento, pois os momentos são ímpares.

As emoções que o sujeito vai desenvolver no processo de aprendizagem estão associadas não apenas com o que ele vivencia como resultado das experiências implicadas no aprender, mas emoções que têm sua origem em sentidos subjetivos muito diferentes que trazem ao momento atual do aprender momentos de subjetivação produzidos em outros espaços e momentos da vida. (GONZÁLEZ-REY, 2007, p. 34)

Cada indivíduo desenvolve o seu próprio “jeito” de aprender, cada um com suas dificuldades e potenciais de aprendizagens, não existe tudo difícil nem tão pouco tudo fácil de se aprender. Entretanto, é fundamental que o processo de aprendizagem seja um momento de acordos de sentidos, um processo de aceitação com novos saberes.

As nossas experiências são fatores essenciais que contribuem para nosso processo de aquisição. O aprender não é um momento isolado do nosso viver de nossas experiências de vida, o aprender é e faz parte do conjunto emocional de interação e ampliação de saberes.

Cabe a cada sujeito reconfigurar o seu modo e estratégias de aprendizagem, em contrapartida, o medidor dos saberes, o professor, precisa ampliar também seus horizontes de entendimento e abertura a novas possibilidades de mediar o conhecimento frente aos seus alunados. Conhecer, aceitar e compartilhar formas diferentes de aprendizagens é um dar tenacidade ao processo de aprendizagem.

O processo de observação é fundamental nos caminhos rumo a novos aprendizados, pois o surgimento das MC não são combinados nem planejados pelos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Elas surgem em conformidade ao contexto abordado frente à ciência e as experiências individuais.

6. SURGIMENTO DAS METÁFORAS CRIATIVAS

Primeiro episódio – Na abordagem do conteúdo das “Reticências” na escrita da Língua Portuguesa. O estudante visual comparou a aplicação das reticências ao deslocamento da água em uma cachoeira, pois a água cai sobre as rochas e continua o caminho constituindo um riacho onde a água continua seu processo natural. Ou seja, a reticência é análogo ao percurso da água, sem especificar onde e quando terminará seu trajeto.

Segundo episódio – No conteúdo do uso dos “Porquês” da Língua Portuguesa. Uma estudante visual compara o “por que” separado com a estrutura morfológica do sinal de “por que” quando perguntado em Língua de Sinais. Sendo os dedos indicadores das mãos se tocarem repetidamente, logo se usa as duas mãos para perguntar. Então na escrita da LP os “por ques” ficarão separados. Já o “porque” junto é análogo os sinal de justificativa a uma pergunta onde o sinal é constituído pela união dos dedos indicadores e médios das duas mãos, portanto, se usa os dois dedos juntos, o “porque” de resposta será junto.

Terceiro episódio – Uso da “virgula” em conformidade as normativas da LP. Neste conteúdo o estudante visual foi a frente da sala falar que é muito fácil “colocar virgula nos lugares certos”. Assim foi explanado pelo estudante: a virgula pode ser colocado todas as vezes que você usar os dedos para indicar quantidade de coisas, exemplo: “Os nomes dos filhos da minha cachorra são: Chuva, Vento, Mar e Terra”. Na Língua de Sinais - LS a cada nome de um cachorro usa-se a apontar para um dedo, indicando quantidade com respectivos nomes, logo usa-se uma vírgula entre eles e entre o penúltimo e último usa-se a partícula “e” na LP. Ou também, a cada pausa dos sinais com expressão de pensamento, usa-se uma “virgula” com mesmo recurso, anteriormente explanado.

O sujeito emerge na ação que vai mais além das normas formais estabelecidas, na possibilidade de gerar espaços próprios de subjetivação que lhe permitam um desenvolvimento diferenciado nos espaços da subjetividade social. ( GONZÁLEZ-REY, 2007, pg. 144).

Ao observar as experiências e construções de novos acordos de sentido configurados pelas MC, sendo constituídas pelos estudantes visuais mostrou-me uma autonomia estabelecido no campo das relações sociais aplicadas aos novos saberes, Ciências Naturais e Língua Portuguesa. As MC são reflexos da quebra das formalidades e regras linguísticas, elas se desprendem do engessamento, ou seja alimentam-se da subjetividade social.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As Metáforas Criativas são constituídas para o confronto às certezas e às incertezas frente a novos saberes – conteúdos. Tais Metáforas são criadas no momento da interação entre professor/aluno e aluno/aluno, conteúdo e meio ambiente; momento em que o estudante busca relacionar os conteúdos às suas experiências individuais, emoções e saberes, comumente vistos como “sem valores” cognitivos nem concretos.

Assim, a afetividade estudantil dos estudantes visuais frente às abordagens teóricas das Ciências Naturais e Língua Portuguesa norteiam e favorecem a compreensão da estrutura gramatical da própria LP na modalidade escrita. Pois, o processo de aquisição da LP como segunda língua para o visual é ancorada pelo processo afetivo.

A subjetividade sustentará todo o processo de compreender e ser compreendido entre aluno-professor-aluno. O ato de observar as MC de cada aprendiz consolida a prática do “aprender a aprender o processo de aprendizagem” do estudante visual, valorizando, respeitando e compreendendo as Metáforas Criativas como meio de sobrevivência em uma sociedade grafocêntrica. Esse processo demanda a responsabilidade do educador em não nomear o sujeito aprendiz como meramente um indivíduo SURDO, mas pelo fato do mesmo “SERhumano”, constituído da relação do Eu com o Meio Ambiente, não como relações independentes, mas como seres intrínsecos e com potência às suas Eficiência, a visualidade.

Portanto, a deficiência não é o sujeito visual, mas a fragilidade dos educadores de compreender , observar, analisar, “ouvir”, ver e sentir às necessidade no processo de interação.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. (1979) Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

______. Questões de Literatura e Estética: a teoria do romance. São Paulo: HUCITEC Editora, 2010.

COUTO, E. K. N. N.; DUNCK-CINTRA, E. M.; BORGES; L. A. de O. (orgs). Antropologia do imaginário, Ecolinguísitca e Metáfora. Brasília, DF : Thesaurus, 2014.

COUTO, H. H. Ecolinguística: estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus, 2007.

DE MASI, D. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

DRAAISMA, D. Metáforas da memória: uma história das ideias sobre a mente. Bauru, SP: Edusc, 2006.

DUARTE, A. S. Libras para acadêmicos sob uma perspectiva bakhtiniana. Cuiabá-MT, UFMT, 2011.

DUARTE, N. Vigotski e o “aprender a aprender”: críticas às apropriações neoliberais e pós modernas da teoria vigotskiana. Campinas, SP: Autores Associados, 2006.

GONZÁLEZ-REY, F. Psicoterapia, subjetividade e Pós-Modernidade: Uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson Learning, 2007.

HOFFMANN, M. B. Analogias e metáforas no ensino de biologia: um panorama da produção acadêmica brasileira. Florianópolis: 2012.

MOLON, S. I. Subjetividade e constituição do Sujeito em Vigotysky. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2010.

TRASK, R. L. Dicionário de linguagem de linguística. São Paulo: Contexto, 2011.

VIGOTSKI, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

VILELA, M. Metáforas do Nosso Tempo. Coimbra, Portugal: Almedina, 2002.






1 Doutor, professor Adjunto I – Universidade Federal de Mato Grosso, líder do Grupo de Pesquisa REBAK Sentidos, vice-líder do Grupo de Pesquisa REBAK.

2 Pensamento defendido em doutoramento (2016) em que concebe o sujeito em sua potencialidade linguística e social, acarretando a medicina a deficiência e ao educador a eficiência de aprendizagem, ou seja a visualidade e não a surdez.

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