Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil
Revista de Educação Pública: v. 35 n. jan/dez (2026)
DOI: doi.org/10.29286/rep.v35ijan/dez
ISSN eletrônico: 2238-2097
Como citar: CORADINI, Fábio dos Santos; SANTOS, Edméa Oliveira dos. O Afrofuturismo na Cibercultura: uma ciberpesquisa-formação. Revista de Educação Pública, v. 35, 2026. DOI: https://doi.org/10.29286/213882026
Resumo Este artigo discute a vivência metodológica da ciberpesquisa-formação, praticada em uma pesquisa de doutorado em andamento, no contexto do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O objetivo é compreender como essa metodologia e seus dispositivos formativos potencializam a construção de experiências ciberafrofuturistas na cibercultura. Construídas como atos de currículo, as ações organizaram-se em quatro eixos: cartografia na cidade, estado da arte sobre o Afrofuturismo, etnografia online no Instagram e um Clube de Leitura Online Afrofuturista na extensão universitária. Ao consolidar esse desenho metodológico, o estudo compreende como o Afrofuturismo tensiona e atravessa diferentes campos do saber. Os resultados apontam que ao articular cibercultura e Afrofuturismo em atos de currículo, a ciberpesquisa-formação possibilitou a criação de métodos insurgentes que contribuem para visibilizar e legitimar as epistemologias pretas no espaço acadêmico.
Palavras-chave: Afrofuturismo; Ciberpesquisa-formação; Cibercultura; Metodologia
Abstract This article discusses the methodological experience of cyber-research-formation (ciberpesquisa-formação), practiced within an ongoing doctoral research in the Graduate Program in Education at the Federal Rural University of Rio de Janeiro (UFRRJ). The objective is to understand how this methodology and its formative devices foster the construction of cyber-afrofuturist experiences within cyberculture. Framed as curriculum acts, the actions were organized into four axes: urban cartography, a state-of-the-art review on Afrofuturism, online ethnography on Instagram, and an Online Afrofuturist Reading Club within university outreach. By consolidating this methodological design, the study grasps how Afrofuturism tensions and intersects different fields of knowledge. The results indicate that by articulating cyberculture and Afrofuturism within curriculum acts, cyber-research-formation enabled the creation of insurgent methods that contribute to making Black epistemologies visible and legitimate within the academic space.
Keywords: Afrofuturism; Cyberresearch-Education; Cyberculture; Methodology
Este artículo discute la vivencia metodológica de la ciberinvestigación-formación (ciberpesquisa-formação), practicada en una investigación de doctorado en curso, en el contexto del Programa de Posgrado en Educación de la Universidad Federal Rural de Río de Janeiro (UFRRJ). El objetivo es comprender cómo esta metodología y sus dispositivos formativos potencializan la construcción de experiencias ciberafrofuturistas en la cibercultura. Construidas como actos de currículo, las acciones se organizaron en cuatro ejes: cartografía en la ciudad, estado del arte sobre el Afrofuturismo, etnografía en línea en Instagram y un Club de Lectura En Línea Afrofuturista en la extensión universitaria. Al consolidar este diseño metodológico, el estudio comprende cómo el Afrofuturismo tensiona y atraviesa diferentes campos del saber. Los resultados apuntan que, al articular cibercultura y Afrofuturismo en actos de currículo, la ciberinvestigación-formación posibilitó la creación de métodos insurgentes que contribuyen a visibilizar y legitimar las epistemologías negras en el espacio académico.
Palabras clave: Afrofuturismo, Ciberinvestigación-formación, Cibercultura, Metodología.
O presente artigo integra uma pesquisa de doutorado em andamento, a ser publicada no formato tese multipaper, intitulada “Afrofuturismo na educação: experiências online, afrofuturistas e interseccionais de ciberpesquisa-formação na extensão universitária e na cidade”, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), vinculada à pesquisa “Educação Online, Inteligência Artificial e Afrofuturo: experiências interseccionais de ciberpesquisa-formação na Pedagogia Universitária e na Cidade 1”, sob orientação e coordenação da Professora Doutora Edméa Oliveira dos Santos, líder do Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GPDOC).
O conceito de Afrofuturismo foi introduzido pelo teórico e crítico cultural Mark Dery em seu ensaio “Black to the Future” 2 (1994), no qual Dery desenvolve uma reflexão sobre a escassez de autores negros na literatura de ficção científica nos Estados Unidos. No Brasil, o movimento afrofuturista ganha destaque a partir das obras literárias de Fábio Kabral, com seus livros Ritos de passagem, narrativa fantástica publicada em 2014 pela Editora Giostri, e O caçador cibernético da rua Treze, ficção lançada pela Editora Malê em 2017. Nesse contexto, destaca-se a pioneira Lu Ain-Zaila, a primeira mulher a se tornar uma referência no afrofuturismo no país, com seu conto infantil “O caminho Sankofa de Nande”, publicado em 2007 na renomada revista Eparrei, sob a direção editorial de Alzira dos Santos Rufino. Além desse conto, o lançamento da Duologia Brasil 2408, composta por duas partes, InVerdades (2016) e REvolução (2017), e o da coletânea de contos Sankofia (2018) marcam o protagonismo desses autores como precursores do movimento afrofuturista brasileiro.
Ao compreender o campo estético do Afrofuturismo, dialogamos com Nilma Lino Gomes (2017) ao situar que o Movimento Negro reivindica a necessidade de representatividade identitária, por meio de uma estética-expressiva através do corpo, da imagem, das tecnologias, da ancestralidade, da informação, do comportamento e da produção autônoma do movimento, sendo isso um ato político. Portanto “o Movimento Negro é um educador” (Gomes, 2017, p. 13).
Segundo Ale Santos (2026) o Afrofuturismo, enquanto movimento, não é uma ferramenta didática, pois nasce na ficcção que vai além da sala de aula, está em outro lugar: o da especulação estética e política profunda. Ou seja, buscamos neste trabalho construir aproximações que possibilitam compreender a multirreferencialidade do Afrofuturismo, na construção de pensamentos especulativos que projetem futuros impossíveis, porque conforme destaca Octavia Butler (1995, p. 135) “ a ficção científica estimula a imaginação e a criatividade. Ela tira o leitor e o escritor do caminho comum, da trilha estreita e apertada do que "todo mundo" está dizendo, fazendo, pensando”.
A partir do contato com a literatura afrofuturista, de seus deslocamentos narrativos produzidos pela ficção e de sua constituição histórica, iniciamos um mergulho conceitual em busca de compreender como o Afrofuturismo se configura e se manifesta no contexto brasileiro.
A primeira fase da pesquisa, com início em 2023, teve como objetivo ocupar o território, cartografando e buscando expressões afrofuturistas na cultura, como o teatro, feiras, eventos entre outros. Em paralelo, ocupamos as redes para entender como o fenômeno do Afrofuturismo se organizava na cena cibercultural, em especial, através dos autores afrofuturistas que ocupavam as redes para falar sobre suas autorias, momento em que nosso foco se organiza para realizar uma etnografia viva, orgânica e contínua no Instagram. Após essa primeira fase, constatamos a ausência de estudos que organizassem a produção sobre o Afrofuturismo no Brasil. Diante disso, iniciamos a elaboração de um Estado da Arte, o qual foi publicado em agosto de 2024 no formato de artigo, intitulado "Afrofuturismo na educação: um Estado da Arte", na Revista Teias 3.
Seguindo o processo, e a partir da metodologia ciberpesquisa-formação, alinhados a um dos objetivos centrais da produção de conhecimento no GPDOC, que é “desenvolver currículos e práticas curriculares para o exercício da docência e compreender como as interfaces digitais podem contribuir para a produção e gestão do conhecimento”, buscamos, por meio das práticas e experiências vivenciadas pelo GPDOC em um Clube de Leitura Ciberfeminista, iniciar a construção do dispositivo de ciberpesquisa-formação da tese, intitulado “Clube de Leitura Online Afrofuturista” na extensão universitária.
Para Macedo (2023, p. 190), “onde a extensão universitária habita e há produção de aprendizagens e saberes na universidade, há o exercício de atos de currículo. O viés formacional da extensão universitária emerge no âmago do acontecer acionalista de forma importante e necessária”.
Nesse contexto, o Clube de Leitura Online Afrofuturista 4 busca territorializar o saber extensionista, produzindo ato de currículo. A atividade, realizada online, teve como objetivo democratizar o acesso da sociedade à extensão universitária, criando inovação por meio de metodologias, microdispositivos e práticas que subvertem os tempos e espaços tradicionais da educação, permitindo que a universidade aprenda com as pessoas e a comunidade.
A partir desta breve contextualização da pesquisa, nosso objetivo geral é compreender como a ciberpesquisa-formação, através de seus dispositivos metodológicos, possibilita a construção de experiências pedagógicas afrofuturistas interseccionais, a partir da cartografia do território, da etnografia online e da participação no Clube de Leitura Online Afrofuturista, articulando saberes nos campos da Pedagogia e da extensão universitárias, promovendo novas formas de conhecimento e práticas educacionais no contexto acadêmico.
Portanto, a educação constitui o campo privilegiado para as reflexões desenvolvidas neste texto, uma vez que os atos metodológicos possibilitaram compreender o lugar do Afrofuturismo em nosso estudo, bem como suas potencialidades pedagógicas. Durante o estado da arte, pudemos perceber que não existem, no Brasil, teses sobre o tema publicadas em Programas de Pós-Graduação em Educação, pois elas se concentram em programas interdisciplinares, assim como na produção de saberes e práticas ciberafrofuturistas na extensão universitária.
O artigo está organizado em quatro seções principais. Na introdução, apresentamos o contexto da pesquisa e a escolha da metodologia. A segunda seção aborda o movimento afrofuturista e sua relação com a cibercultura, contextualizando o surgimento do termo e sua evolução no Brasil. Na terceira seção, discutimos o estado da arte, focando a produção acadêmica sobre o Afrofuturismo. Por fim, a quarta seção detalha os quatro atos metodológicos da pesquisa.
De acordo com Lemos (2003, p. 11), a “cibercultura é a cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais”. Para esse autor, vivemos já a cibercultura. Ela não é o futuro que vai chegar, mas o nosso presente (home banking, cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros).
Para Edméa Santos (2005, p. 8), a “cibercultura é o movimento sociotécnico-cultural que gesta suas práticas a partir da convergência tecnológica da informática com as telecomunicações que faz emergir uma pluralidade de interfaces síncronas e assíncronas de comunicação e uma multiplicidade de novas mídias e linguagens”.
Nesse contexto de atualização, o conceito de cibercultura também se organiza conforme observou Santos (2014, p 17) destacando que a cibercultura “é a cultura contemporânea que revoluciona a comunicação, a produção e circulação em rede de informações e conhecimentos na interface cidade-ciberespaço”. E, com isso, novos arranjos espaçotemporais emergem e com eles novas práticas educativas.
O Afrofuturismo opera nesse contexto da cibercultura, manifestando-se a partir do ciberespaço como movimento de possibilidades negras, da inteligência afrodiaspórica e dos saberes ancestrais produzidos a partir das interfaces de comunicação no digital. Santos e Coradini (2025) destacam que há também um movimento de resistência e criação, no qual as culturas tradicionais e ancestrais dialogam com as tecnologias digitais, abrindo caminhos para outras epistemologias possíveis e consequentemente “inéditos viáveis”, denominado “Afrofuturismo”.
Partimos desse cenário de conexão, em que o Afrofuturismo dialoga com a cibercultura, especialmente quando nossos corpos digitalizados não se despredem de suas existências e realidades territoriais. Para Ale Santos (2026), imaginar o futuro, seja uma utopia, seja uma distopia, é falar da existência de corpos que vivem os não lugares sociais, das linguagens silenciadas, das alegorias de existência e lutas, pois na literatura afrofuturista entregamos a ferramenta criativa e emocional para que todos possam entrar em sua própria jornada de descoberta.
Nesse sentido, Coradini e Santos (2025) propõem um estudo que estabelece um diálogo entre a cibercultura e o afrofuturismo, resultando no conceito de ciberafrofuturismo. Trata-se de perspectiva conceitual se apropria das tecnologias digitais para promover a inclusão e a representatividade negra no ciberespaço, criando narrativas que resgatam a herança ancestral e a projetam em um futuro tecnológico e cibernético. A partir da proposição desse conceito de ciberafrofuturismo, dialogamos com Ale Santos (2021), ao destacar que se apropriar do digital é reivindicar o espaço de criadores negros nas mais diversas áreas de conhecimento, colocando a experiência da vida negra na cibercultura e em uma conversa com o futuro.
Durante sua participação no Rio Innovation Week, realizado na cidade do Rio de Janeiro em 2023, Achille Mbembe levantou uma importante questão: até que ponto é possível reinventar as novas tecnologias para que elas aumentem nossas capacidades de produzir sentido e ciência? Para Achille Mbembe (2023) quando tecnologia, filosofia e ciência se encontram, o futuro deixa de ser teoria e vira responsabilidade. Uma responsabilidade que atravessa o exercício de imaginar futuros impossíveis, pois como nos ensina Ale Santos (2026) é pelo Afrofuturismo que podemos reposionar as experiências negras ao centro desse imaginário, necessitando sermos capazes de integrar as vivências negras de todo o continente.
Portanto, é na interseção entre o Afrofuturismo, a tecnologia e a cibercultura que desenvolvemos o conceito de ciberafrofuturismo, implicado com a construção especulativa das experiências negras, que pensa o futuro, a diversidade etnicorracial e os contextos contemporâneos digitais, sem se desconectar dos saberes ancestrais.
A ciberpesquisa-formação ou pesquisa-formação na cibercultura é uma modalidade de pesquisa em educação desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GPDOC), através do caráter multirreferencial do grupo, em decorrência da leitura plural de seus praticantes e dispositivos de formação. Segundo Santos (2014), o método da pesquisa-formação foi inspirado nas abordagens da pesquisa-ação em Barbier (2002), no conceito de formação abordado nos trabalhos de Freire (1998), Macedo (2000, 2001) e Nóvoa (1995, 2002, 2004), e na pesquisa-formação como a entende Josso (2004).
A experiência do GPDOC permitiu a criação de novas formas de pesquisar no digital, que se atualizam e se transformam a cada novo projeto em desenvolvimento. O caráter multirreferencial da ciberpesquisa-formação dialoga diretamente com o que Barbier (2002) destaca como “rigor científico” baseado em pesquisas qualitativas, e com Macedo (2009, p. 78), para quem as epistemologias qualitativas, no seu desenvolvimento político-epistemológico, historicamente se direcionam para uma pesquisa outra, para uma ciência outra, para um rigor outro e, de forma significativa, para uma formação outra em relação à pesquisa.
Dentro desse campo de pesquisa marcado por sua pluralidade, emergiu o fenômeno do afrofuturismo. E nosso objetivo inicial foi compreender como a metodologia da ciberpesquisa-formação poderia ser praticada em diálogo com o afrofuturismo, a partir da construção de atos de currículo e dispositivos capazes de mobilizar os saberes epistemológicos do movimento com as questões sociais da contemporaneidade.
Esse movimento, que integra tecnologia, futuro e identidade negra, encontra na ciberpesquisa-formação uma metodologia que não só permite a análise crítica das dinâmicas sociais e culturais, mas também contribui para a criação de novas narrativas. Assim, a metodologia se organiza para atender não apenas às exigências acadêmicas, mas também às urgentes questões sociais que permeiam o cotidiano e as realidades étnico-raciais e culturais da contemporaneidade.
Conforme destaca Santos (2014), para pesquisar na cibercultura é necessário encarnar o objeto, tornar-se membro da cibercultura, ir a campo para compreender de forma situada, criando dispositivos metodológicos que permitam que o objeto se desvele no contexto do campo da pesquisa. A autora ainda destaca que, em vez de ir ao “campo coletar dados e julgar o real a partir do referencial teórico, é preciso vivenciar o contexto cultural, interagir com os sujeitos e seus objetos técnicos, suas produções culturais, seus etnométodos” (p. 91).
Cabe destacar, que no transcurso deste trabalho, foram utilizadas as ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no processo de elaboração, a saber: ChatGPT-Plus, na organização do resumo e formatação das referências e o Gemini-Pro, na geração das imagens nº 1 e 2 e na tradução do resumo para a língua inglesa. Segue os prompts utilizados no texto:
ChatGPT-Plus - Organização do resumo e formatação das referências:
“A partir do resumo escrito em lingua portuguesa com 150 palavras, reoganize as ideias, mantendo o limite de palavras, com a seguinte sequência: introdução, contexto, problema, metodologia e conclusão”.
“A partir das referências apresentadas, organize-as em ordem alfábetica, realizando as devidas correções de acordo com a ABNT 6023, respeitando a sua última atualização no ano de 2025”.
Gemini-Pro - tradução do resumo
“De acordo com o resumo apresentado, realize a tradução literal do texto para a lingua inglesa, respeitando as formas e sentidos das palavras”.
Para Ranniery e Paraíso (2012), o objeto cartográfico é a dissolução da forma e a instauração da velocidade. Ele é como alguma coisa que se estende sobre uma superfície, geográfico, geológico e que pode tomar emprestado muitos modos de existir. Segundo Deleuze e Guattari (1995), a cartografia é o procedimento metodológico operacional da vida, antes de ser apropriado por qualquer área do conhecimento. Os autores apontam que toda essa construção se estabelece no pensamento sobre o rizoma, não como representação, mas no seu constructo inventivo. De acordo com Deleuze e Guattari (1995) o rizoma funciona como um mapa, quando se entende que:
o mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói (...). O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social (...). Uma das características mais importantes do rizoma talvez seja a de ter sempre múltiplas entradas… (Deleuze e Guattari, 1995, p. 22).
Nesse percurso, a cartografia assumiu o caráter de uma experiência formativa, marcada pela circulação entre diferentes territórios físicos e digitais, nos quais se manifestam práticas culturais, artísticas e educacionais comprometidas com a produção de imaginários de futuro. As afetações produzidas nesses encontros constituíram elementos centrais para a compreensão dos modos pelos quais o Afrofuturismo opera como dispositivo de criação, pertencimento e transformação social, extrapolando os limites dos espaços institucionais e configurando-se como uma rede dinâmica de produção de conhecimentos e narrativas.
Ao entender que o fenômeno habita o território e por ele é modificado, ressignificado e praticado, em uma relação viva, inventiva e cotidiana, se relacionando a partir de tantas perspectivas e pontos de vistas que sobre ele existem, que viajamos ao encontro das expressões afrofuturistas.
Da exposição Arte Cibernética (2023), na estação Itaú Cultural de Belo Horizonte, passando pela Nova Bienal de Arte e Tecnologia (2023) 5 no Museu do Amanhã no Rio de Janeiro até a exposição Humanidades Digitais Negras, promovida pela BSAM Brasil na plataforma de metaverso Spatial (2023). Do Aquilombar (2023), projeto do SEBRAE referente a comidas típicas, moda, artesanato e apresentações afro-brasileiras, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, ao Festival Futuros Possíveis (2023), promovido pela Casa FIRJAN no Rio de Janeiro.
Da Feira Preta (2024) em São Paulo ao Festival do Afrofuturismo Ano VI (2024) em Salvador. Da peça de teatro Macacos (2024/2025), com Clayton Nascimento, no Teatro Riachuelo, passando pela peça O pequeno manual antirracista (2024) estrelado por Luana Xavier no Teatro Prio, ao espetáculo Rendez-vous: Sortilégio, de Abdias Nascimento (2024), apresentado pela Companhia Estilhaça no Teatro Sérgio Britto, todos no Rio de Janeiro.
Do Museu Nacional de Cultura Afro-Brasileira no Rio de Janeiro (2023), no evento “Afrofuturismo e Ancestralidade”, com Steve R. Allen, ao Museu Nacional de Cultura Afro-Brasileira em Salvador (2024), apreciando a exposição Um defeito de cor, baseada na obra homônima de Ana Maria Gonçalves, com uma passagem pela Escola Afro-Brasileira Maria Felipa (2024).
Do encontro com o autor afrofuturista Ale Santos na Bienal do Livro de Rio de Janeiro (2023) e na Flipelô em Salvador (2025) ao encontro com a protagonista feminina do Afrofuturismo no Brasil, Lu Ain-Zaila, no projeto Letras Pretas (2024) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e no lançamento da HQ Afrofuturista da autora na Biblioteca Comunitária Nilo Sérgio, na cidade de Nova Iguaçu, estado do Rio de Janeiro (2025).
O estado da arte 6realizado nesta pesquisa teve como objetivo investigar as produções acadêmicas relacionadas ao afrofuturismo na educação, a partir das dissertações e teses disponíveis nos portais de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). O levantamento realizado abrangeu o período de 2010 a 2024 e revelou a escassez de publicações sobre o tema na área de educação, destacando a necessidade de ampliar as discussões acadêmicas a respeito do afrofuturismo nesse campo.
A realização desse estado da arte se deu pela identificação de uma lacuna significativa nas produções científicas relacionadas ao afrofuturismo no Brasil, especialmente no campo da educação. Embora o movimento tenha ganhado visibilidade em áreas como a literatura, as artes e a música, seu vínculo com as práticas pedagógicas e os processos educativos ainda é incipiente. Assim, a pesquisa busca não apenas mapear as produções existentes, mas também estimular novas investigações sobre como o afrofuturismo pode ser integrado nas metodologias de ensino, oferecendo um campo para a criação de currículos que promovam o letramento afrofuturista e a valorização das experiências negras dentro das narrativas educacionais contemporâneas.
No decorrer da cartografia realizada nas cidades, muitos encontros se concretizaram, justamente porque, na ciberpesquisa-formação, o pesquisador busca um encontro direto com o seu praticante, colaborando e cocriando a partir de seus etnométodos. Nesse processo, após os encontros com os autores Ale Santos e Lu Ain-Zaila, que são referências no campo da literatura afrofuturista e pioneiros no desenvolvimento do movimento afrofuturista no Brasil, compreendemos que, para estabelecer uma relação entre território e ciberespaço, seria necessário mapear as ações de alguns dos principais nomes do movimento no Instagram. Esse mapeamento visa não apenas a analisar as produções desses autores, mas também a entender como suas práticas influenciam e se conectam com as dinâmicas da cibercultura, permitindo uma compreensão mais profunda da interface entre a literatura afrofuturista e o espaço virtual.
O mapeamento revelou a diversidade de formas de expressão afrofuturista, incluindo literatura, arte digital, música e produções audiovisuais. A partir dessa análise, selecionamos três importantes nomes do afrofuturismo no Brasil, a saber: Ale Santos (@savagefiction), eleito pela revista Science Fiction Research Association (SFRA) como o autor afrofuturista mais popular da nova geração, autor dos livros Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro (2019), O último ancestral (2021) e A malta indomável (2023), finalista duas vezes do Prêmio Jabuti; Fábio Kabral (@kabralescreve), autor dos livros Ritos de passagem (2014), O caçador cibernético da rua Treze (2017), A cientista guerreira do facão furioso (2019), O blogueiro bruxo das redes sobrenaturais (2021) e Sopro dos deuses (2024), e Lu Ain-Zaila (@luainzala), a primeira mulher a produzir literatura afrofuturista no Brasil, autora dos livros Duologia Brasil 2408 – Parte I: (In) Verdades (2016) e Duologia Brasil 2408 – Parte II: (R) Evolução (2017); Sankofia: breves histórias afrofuturistas (2018), Ìségún (2019) e a HQ afrofuturista Ukwa: a vigilante dos mundos (2025). Com suas obras, esses autores têm contribuído significativamente para a consolidação do afrofuturismo no cenário literário e cultural brasileiro, utilizando a ficção para questionar e reimaginar o futuro da população negra no Brasil e no mundo.
Jean Segata e Theophilos Rifiotis (2016) destacam que a etnografia online, prática metodológica da cibercutura, tem promovido transformações profundas e mudanças na sociedade, refletindo nas dinâmicas sociais e na relação das pessoas com o território e o digital, especialmente no que tange à construção de identidades e à produção de conhecimento. Portanto, o Instagram, enquanto locus privilegiado dessa etnografia digital, configura-se como espaço sociointeracional dinâmico, marcado simultaneamente por tensões, disputas simbólicas e potencialidades de construção de vínculos.
Nesse contexto, a opção pela etnografia online se mostrou apropriada, pois possibilitou o acompanhamento das interações, autorias, invenções e produções desses autores, bem como a análise das formas como o afrofuturismo tem sido apresentado e discutido no ciberespaço.
De acordo com Santos (2024, p. 15), “a pesquisa e os processos formativos na cibercultura estão cada vez mais em sintonia e fazendo convergir espaços/tempos e pedagogias em movimento e em interface entre territórios físicos (cidade), informacionais (ciberespaço) e simbólicos (práticas de subjetivação)”. Portanto, para a autora, torna-se cada vez mais desafiadora a produção de dispositivos e metodologias de pesquisa que busquem convergências de linguagens, bem como seus suportes híbridos.
Como parte dos processos metodológicos desta pesquisa em andamento, a opção para trabalhar com a extensão universitária, por meio do projeto do Clube de Leitura Online Afrofuturista, fundamenta-se no protagonismo do GPDOC e na curricularização da extensão. Cabe destacar que o GPDOC, através dos seus dispositivos de ciberpesquisa-formação, mobiliza saberes multirreferenciais, estabelecendo uma relação ética e política com todas as formas de produzir aprendizagens, transformando-as em atos de currículo para a docência.
A extensão universitária foi definida em 1987, durante o Fórum Nacional de Pró-Reitores das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (FORPROEX), como um processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e outros setores da sociedade. Nesse sentido, ao possibilitarmos a interseção entre o ambiente acadêmico e a comunidade, oferecemos uma plataforma que nos possibilita a aplicação prática dos saberes produzidos na universidade.
Macedo (2023, p. 182) destaca que “a extensão compõe e corporifica a capacidade e o compromisso da educação superior de ampliar a sua compreensão e coparticipação em ações heurísticas e formacionais socialmente referenciadas e referendadas”. O autor destaca ainda que a curricularização já existe quando as ações extensionistas produzem de forma inarredável o que se denomina “atos de currículo” (Macedo, 2010 e 2019). Nesse contexto, o Clube de Leitura reside na oportunidade de cocriar, de maneira colaborativa, um ato formativo que não apenas contribui para o desenvolvimento intelectual, mas também humaniza o processo educativo.
Barros e Santos (2024) destacam que, por definição, clubes são locais onde se realizam encontros ou reuniões de caráter recreativo, político e social, que contam com pessoas associadas interessadas por um tema e que promovem ações direcionadas a debates, discussões e outras atividades.
Coradini e Santos (2025) destacam que o Clube de Leitura Online Afrofuturista 7 nasce como espaço de pesquisa, criação e formação coletiva, dedicado ao estudo dos fenômenos que emergem do afrofuturismo e das narrativas especulativas negras, se destacando como exemplo de práticas ciberafrofuturistas. Cabe destacar que, durante o ano de 2025, realizamos três edições do Clube de Leitura que contaram com as leituras dos livros: O último ancestral, em dois atos (Santos, 2021) e Sankofia (Lu Ain-Zaila, 2018).
Os encontros ocorreram de forma síncrona, aos sábados, e orientados por uma curadoria intencionalmente pedagógica, com proposição formativa, docente e voltada à construção de aprendizagens. Entre as atividades desenvolvidas, destaca-se a elaboração de um encontro estruturado a partir da produção de imagens por meio de Inteligência Artificial (IA), com base em prompts literais extraídos da obra, configurando um ato de currículo que resultou na produção de um artigo atualmente no prelo. No âmbito assíncrono, foi constituída uma comunidade afrofuturista no WhatsApp, além das interlocuções promovidas por meio do Instagram da pesquisa, sob o perfil @ciberafrofuturismo. Atualmente, encontra-se em desenvolvimento uma plataforma de Inteligência Artificial intitulada “Sankofa IA”, construída com a finalidade de se constituir como possível Recurso Educacional Aberto (REA) voltado exclusivamente para práticas, produções e literaturas afrofuturistas.
A produção deste artigo tem como objetivo divulgar o trabalho realizado a partir de uma pesquisa de doutorado em andamento intitulada “Afrofuturismo na educação: experiências online, afrofuturistas e interseccionais de ciberpesquisa-formação na extensão universitária e na cidade”, cujo propósito é apresentá-lo à comunidade científica no formato multipaper, buscando ampliar a circulação do conceito ciberafrofuturismo, desenvolvido na tese.
O ciberafrofuturismo compreende as tecnologias digitais em diálogo com as tecnologias ancestrais, reconhecendo que os processo de produção de conhecimento da relação cidade-ciberespaço se organizam a partir da ancestralidade, do contemporâneo, das memórias e da existência de pessoas negras que não se restringem aos dispositivos digitais, pois optam operar sobre a realidade na relação com o digital, em uma prática de saberes, uma ecologia de narrativas, oralidades, espiritualidades e todas se constituindo em formas coletivas de experiências e organização.A partir do entendimento de que esse encontro da cibercultura com o Afrofuturismo, temos no digital uma possibilidade de compreender outro espaço de criação, de invenções, de futuridades, preservando os saberes ancestrais se constituem entre o digital e a realidade.
Nesse percurso, todos os atos metodológicos dessa pesquisa, assumem o caráter de uma experiência formativa, marcada pela circulação entre diferentes territórios físicos e digitais, nos quais se manifestam práticas culturais, artísticas, educacionais e ciberafrofuturistas, comprometidas com a produção de imaginários de futuro, que na sua completude, podem também ocupar a impossibilidade. As afetações produzidas nesses atos se constituíram em movimentos e modos pelos quais o Afrofuturismo opera como dispositivo de criação e pertencimento, permitindo ao praticante compreender os limites dos espaços ficcionais e a realidade.
Portanto, corroboramos com Ale Santos (2026) ao destacar que para a população negra e periférica, projetar o amanhã e construir novas realidades sempre significou romper as barreiras e as tendências do que o sistema determinava como o nosso limite. Toda existência negra é uma impossibilidade, que foi construída por pessoas que sonhavam fora dos cenários possíveis. Para o ciberafrofuturismo o impossível sempre foi a tecnologia negra.
Conflitos de Interesses: Os autores declaram que não há interesse comercial ou associativo que represente conflito de interesse com relação a este manuscrito.
Financiamento: O artigo recebeu financiamento das seguintes instituições de fomento:
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) -Cientista do Nosso Estado (CNE) à coautora, registrado sob o processo E-26/201.124/2022, renovada pelo processo nº E-26/200.274/2026.
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)-Bolsa Produtividade em Pesquisa (PQ) registrada sob o processo nº 304892/2025-4 (Edital 18/2024) e Edital Universal 10/2023 à coautora
Pró-Reitoria de Extensão (ProExt) e à (UFRRJ-Projeto“PJ-100 -Clube de Leitura Afrofuturista: uma ciberpesquisa-formação na Extensão Universitária”, Edital nº 26/2025 –BIEXT/2025-2026
Contribuição dos autores:
Fábio Coradini-Autoria, Curadoria dos Dados, Investigação, Metodologia, Validação, Redação -rascunho original e Redação -revisão e edição.
Edméa Santos-Coautoria, Curadoria dos Dados, Metodologia, Validação e Revisão de conteúdo.
Recebido: 09/04/2026
Aceito: 30/06/2026
Publicado: 05/08/2026
1 Projeto financiado pela Bolsa do Cientista do Nosso Estado (CNE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), Bolsa Produtividade em Pesquisa (PQ) e Edital Universal nº 10/2023 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ)
2 Artigo incluído na coletânea Flame Wars: The Discourse of Ciberculture, organizada por Dery. A edição temática #1, afrofuturismo, da revista Ponto Virgulina (2020), publicou o artigo em portugês com o título “De volta para o afrofuturo”. Disponível em: https://traducaoliteraria.wordpress.com/2020/06/03/ponto-virgulina-1-afrofuturismo/
3 Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistateias/article/view/84408
4 Projeto registrado sob o CAAE: 89875125.1.0000.0311, na Plataforma Brasil, contemplado pelo Projeto-mãe “Educação Online, Inteligência Artificial e Afrofuturo: experiências interseccionais de ciberpesquisa-formação na Pedagogia Universitária e na Cidade, sob acompanhamento do CEP/UFRRJ.
5Mais sobre essa exposição em: SORIANO, M. da S.; CORADINI, F.; SANTOS, E. de O. Inteligência artificial e formação em museus na cibercultura: notas imersivas na exposição “Nova Bienal Rio de Arte e Tecnologia”. Disponível em: https://www.editoratiradentes.com.br/destaques/educacao-e-inteligencia-artificial/
6 Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistateias/article/view/84408
7 Projeto contemplado em terceiro lugar no Edital 26/2025 (BIEXT-2025/2026). O BIEXT é o Programa de Bolsas de Iniciação à Extensão vinculado à PROEXT. O programa é financiado por recursos institucionais e visa dar apoio a programas e projetos de extensão sob coordenação de docentes dos diferentes campi da UFRRJ.