Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil
Revista de Educação Pública: v. 35 n. jan/dez (2026)
ISSN eletrônico: 2238-2097
DOI: doi.org/10.29286/rep.v35ijan/dez
Como citar: BRANCO, Juliana Cordeiro Soares; TEIXEIRA, Paola Cristine. Metodologias De Ensino-Aprendizagem: caminhos para uma formação humana. Revista de Educação Pública, [S. l.], v. 35, n. jan/dez, 2026. DOI: doi.org/10.29286/200772026.
Desenvolver metodologias de ensino-aprendizagem que contribuam para a formação humana, faz-se um desafio necessário diante do cenário atual, onde observamos uma educação mais voltada para elevar estatísticas do que formar de fato cidadãos críticos e responsáveis, capazes de refletir sobre as necessidades da humanidade. As discussões a seguir trilham um caminho voltado para essa formação, por meio de um levantamento de metodologias que sejam parceiras nesse processo. Discorremos das metodologias direcionando-as a etapa da educação básica, etapa essa que pela própria natureza de suas abordagens e faixa etária dos educandos, são consideradas uma base para desenvolver conhecimentos e habilidades que os preparam para as próximas etapas de aprendizagem, além do preparo para a vida como um todo. Trouxemos para o presente artigo um levantamento dessas metodologias e como essas podem ser usadas a favor da formação humana dos alunos.
Palavras-chave: metodologias ativas de aprendizagem, formação Humana, ensinoaprendizagem.
Developing teaching-learning methodologies that contribute to human development is a necessary challenge in the current context, where education is often more focused on improving statistics than on genuinely forming critical and responsible citizens capable of reflecting on humanity’s needs. In this discussions aim to outline a path toward human development through a survey of methodologies that can support this process. We discuss these methodologies with a focus on basic education, a stage that, due to the nature of its approaches and the age group of learners, is considered foundational for developing knowledge and skills that prepare students for subsequent learning stages and for life as a whole. This article presents a survey of these methodologies and explores how they can be used to promote students’ human formation.
Keywords: active learning methodologies, human Formation, teaching-learning.
Desarrollar metodologías de enseñanza-aprendizaje que contribuyan a la formación humana se presenta como un desafío necesario ante el escenario actual, donde observamos una educación más orientada a elevar estadísticas que a formar de hecho ciudadanos críticos y responsables, capaces de reflexionar sobre las necesidades de la humanidad. Las discusiones que siguen recorren un camino orientado hacia esta formación, mediante un levantamiento de metodologías que sean aliadas en este proceso. Discurrimos sobre las metodologías dirigiéndolas a la etapa de la educación básica, etapa que por la propia naturaleza de sus enfoques y el grupo etario de los educandos, se considera una base para desarrollar conocimientos y habilidades que los preparen para las próximas etapas de aprendizaje, además de la preparación para la vida en general. Trajimos a este artículo un levantamiento de estas metodologías y cómo estas pueden ser usadas a favor de la formación humana de los alumnos.
Palabras clave: metodologías activas de aprendizaje, formación Humana, enseñanzaaprendizaje
Metodologias que se alinham à formação humana contribuem para um processo de conscientização e contextualização histórica possibilitando que os alunos problematizem suas realidades e reflitam sobre causas e possíveis soluções para os problemas sociais enfrentados na atualidade, a exemplo das desigualdades, preconceitos, políticas antidemocráticas, etc. Esse cenário nos leva a refletir sobre o que pode contribuir para a formação de uma sociedade mais humana, e sendo a educação o primeiro elemento que emerge dessas reflexões. Afirmamos isso consciente das limitações da educação, entendendo que são necessárias diversas políticas públicas e sociais para que a educação cumpra seus objetivos. Mesmo assim, a reflexão sobre a educação é parte fundamental do processo de aprimoramento das nossas práticas, enquanto educadores. A história da humanidade precisa ser compreendida como possibilidade para mudança, para o progresso social e como meio de fazer uma crítica reflexiva sobre as metodologias de ensino-aprendizagem atuais e sobre como essas podem influenciar na configuração da sociedade que se pretende construir.
O presente artigo apresenta um levantamento bibliográfico, onde apresentamos diferentes modelos de metodologias de ensino-aprendizagem em diálogo com as práticas pedagógicas voltadas à formação humana.
Refletimos sobre tal formação, a partir da perspectiva de autores que discorrem sobre o tema, associando os saberes mobilizados às metodologias discutidas neste estudo. Recorremos também a documentos normativos voltados à educação, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), para investigar como essa formação é formalizada para os estudantes da educação básica, etapa à qual discorreremos sobre a destinação das metodologias pesquisadas.
No que se refere às metodologias de ensino-aprendizagem, discorremos sobre as defasagens nas metodologias tradicionais em contraste com novas metodologias, os desafios decorrentes dos avanços tecnológicos. Assim, apresentamos discussões voltadas a nova configuração do ensino, com possibilidades de superar práticas mecanicistas e lineares, por meio da busca por alternativas diversificadas, inovadoras e emancipadoras.
Para a elaboração do texto, realizamos um estudo de revisão bibliográfica. A pesquisa bibliográfica envolveu uma revisão da literatura que abarcou teorias pertinentes ao tema, com a construção de uma fundamentação teórica acompanhada de discussão e exemplificação de metodologias de ensino-aprendizagem. Esse método de pesquisa como aquele baseado na análise da literatura já publicada, sob a forma de livros, artigos e outros materiais da área. Desse modo, foi possível sintetizar o conhecimento científico já produzido. Ao mesmo tempo, as autoras dialogam com essa produção e trazem exemplos de práticas docentes possíveis.
Consideramos importante trazer as perspectivas de autores da área da educação para discutir o conceito de formação humana, bem como contextualizá-lo. Essa formação não é exclusiva da escola formal, tendo em vista que pode ser associada a outras instituições e nas vivências de cada sujeito em seu âmbito social, como a família, igreja, projetos, experiências culturais, mídias, entre outras formas de manifestação. A importância de associar metodologias humanizadoras à aprendizagem nas escolas, se dá pelo fato de almejarmos uma sociedade mais justa, ao longo de todo o processo de escolarização, desde a Educação Básica até o ensino superior.
Entendemos que essa formação proposta é mais do que necessária diante dos retrocessos observados em relação às tendências às quais parte da sociedade tem aderindo. Evidenciam-se, nesse contexto, o avanço de posturas conservadoras ou de um “falso-moralismo”, o negacionismo de evidências científicas, como a influência das ações antrópicas na constante degradação ambiental, bem como a discriminação das diversidades étnico-raciais e de gênero, além da intolerância religiosa, entre outros fatores que dificultam o avanço de uma formação humana. Nesse sentido, Freire (2002) aponta que a prática preconceituosa de raça, de classe e de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia.
O resgate de valores voltados à justiça é fundamental para a construção de uma educação mais crítica, reflexiva, democrática e emancipadora. Paulo Freire defendia um modelo de educação baseado na liberdade, na valorização das vivências do educando e em sua autonomia.
Nesse sentido, retomar os ensinamentos freirianos acerca do que significa formar um sujeito humano, capaz de refletir sobre os problemas sociais que o cercam e transformar sua realidade configura-se como um ato de resistência frente a governos e políticas que persistem em adotar caminhos contrários à proposição humanizadora, insistindo em conhecimentos técnicos e transmissão de conteúdo. Em oposição aos métodos tradicionais, Freire (1987) discorre sobre uma pedagogia problematizadora e emancipadora:
Quanto mais se problematizam os educandos, como seres no mundo e com o mundo, tanto mais se sentirão desafiados. Tão mais desafiados, quanto mais obrigados a responder ao desafio. Desafiados, compreendem o desafio na própria ação de captá-lo. Mas, precisamente porque captam o desafio como um problema em suas conexões com outros, num plano de totalidade e não como algo petrificado, a compreensão resultante tende a tornar-se crescentemente crítica, por isto, cada vez mais desalienada. (Freire, 1987, p.40).
A problematização, o reconhecimento, a criticidade, e o pertencimento ao mundo, como sujeito capaz de intervir nos problemas que o cercam, promovem engajamento, disposição para a luta e o desenvolvimento de sentimentos de esperança e liberdade. Assim, emerge uma educação emancipadora, conforme defendido por Paulo Freire em suas obras, discursos e práticas.
Segundo Rodrigues (2001), a escola transforma o sujeito de “ser biológico” em ser cultural, inserido na sociedade que o cerca. Educar envolve complexidade, responsabilidade e a capacidade de mostrar como o homem pode moldar o mundo à sua volta. Para Rodrigues (2001):
O ser humano deverá ser formado para a ação cooperativa, para a solidariedade, para a aceitação do outro, para a noção de limites e para construir a noção de dever. Neste plano, estamos ingressando no que se deve entender como o da formação e desenvolvimento dos princípios da Ética e da Moral, necessários a todos os homens. Somente neste plano pode-se considerar completa a tarefa do que se diz por Educação. (Rodrigues, 2001, p.247).
O autor também destaca a importância de educar para a formação de um sujeito autônomo que desenvolva a capacidade do conhecimento e entendimento dos fenômenos que o cercam no contexto em que está inserido, e sobre a importância de desenvolver valores, pautados na tolerância, respeito e na justiça social. Para Rodrigues (2001), “o domínio de conhecimentos e de habilidades não garante o desenvolvimento humanitário nos educandos, porque não promove, por si mesmo, a formação ética do ser humano” (Rodrigues, 2001, p. 251). Tal ideia justifica-se pelo fato de que mesmo sociedades dotadas desses domínios foram e são capazes de cometer atos desumanos. Mesmo na era moderna, o ser humano não tem sido capaz de conter guerras, governos totalitários, atos de barbárie, descasos com o meio ambiente ou quaisquer outras medidas que afetam a humanidade. Competências, habilidades e uma base de conteúdos a serem aprendidos, sem metodologias eficazes de ensino-aprendizagem, por si só, não garantem, até o presente momento, nem garantirão a adequada formação.
Os métodos tradicionais de ensino trazem o professor como protagonista das aulas, na medida em que o foco recai sobre a transmissão de conteúdo para os alunos, muitas vezes de forma mecânica ou pautada em técnicas padronizadas, historicamente construídas nos modelos mais arcaicos de escola. Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou construção (Freire, 2002, p.25). Na perspectiva freiriana, esse entendimento vincula-se à “educação bancária”, assim denominada para designar um modelo de aprendizagem no qual o aluno assume o papel de receptor das informações transmitidas pelo professor em sala de aula, de acordo com Freire,
Enquanto, na concepção “bancária” – permitas-nos a repetição insistente – o educador vai “enchendo” os educandos de falso saber, que são os conteúdos impostos, na prática problematizadora, vão os educandos desenvolvendo o seu poder de captação e de compreensão do mundo que lhes aparece, em suas relações com ele, não mais como uma realidade estática, mas como uma realidade em transformação, em processo. (Freire, 1987, p.41).
Desse modo, notamos a necessidade de superar esse modelo de educação “bancária”. Isso se justifica pelo objetivo de adotar metodologias que acompanhem o processo de transformação do mundo e da realidade dos alunos, considerando que várias mudanças ocorreram na configuração da nossa sociedade ao longo dos anos.
O ensino mecanicista e linear pode contribuir para o desinteresse por parte dos alunos, visto que esses se sentem pouco estimulados e distanciados do contexto atual, repleto de novidades tecnológicas e acesso fácil a diversos tipos de informação. Os alunos ao presenciarem na escola os mesmos conteúdos e práticas de ensino todos os anos sem qualquer mudança, tendem a ficar desestimulados e sem interesse em frequentar as salas de aula.
Quase todos os aspectos da sociedade passaram por processos de transformação. Os meios de comunicação, as relações familiares e as relações de trabalho, enfim, toda a forma de se relacionar com o mundo passou por transformações. Reconhecemos, contudo, que tais transformações não ocorreram de forma igualitária em toda a sociedade, quando consideramos as desigualdades em diferentes regiões do mundo e as questões culturais. Ainda assim, mesmo diante dessas desigualdades, as transformações foram expressivas na maior parte das sociedades.
A nova configuração da sociedade exige novos olhares sobre como lidar com a juventude na etapa da Educação Básica, base formadora para as próximas etapas, além de formadora também do aluno como um cidadão. Persistir em modelos tradicionais de escola quando tudo ao entorno passou por modificações, é afirmar que de fato a escola não está acompanhando a evolução da sociedade.
Antes da revolução tecnológica, a escola era a principal fonte de informação, socialização e entretenimento. No cenário atual, os alunos são “bombardeados” com informações provenientes de diversas fontes, sem visão crítica e análise das fontes.
Segundo Oliveira (2008):
Não é renunciando aos benefícios das tecnologias que encontraremos a solução dos problemas criada pelo desenvolvimento acelerado e ambicioso da ciência e da técnica, mas acreditar e agir de alguma forma para que as tecnologias se desenvolvam em todos os setores da vida humana, no sentido de buscar novos instrumentos de controle e de proteção à natureza e novas técnicas de relacionamento humano para correção dos efeitos negativos das tecnologias produtivas sobre a humanidade. (Oliveira, 2008, p.9).
Nesse sentido, percebemos a indissociabilidade entre as metodologias de ensino-aprendizagem e os avanços tecnológicos da modernidade. Destacamos também a importância de ensinar nas salas de aula sobre o uso adequado da tecnologia, não como inimiga do processo educacional, mas como aliada. Oliveira (2008) afirma que para que isso ocorra, é necessário modificar essa perspectiva que sustenta uma visão equivocadas metodologias. “É preciso deixar claro que as tecnologias não estão amarradas às lógicas das determinações sociais do capitalismo”. (Oliveira, 2008, p. 9).
Contudo, não pretendemos discutir, neste estudo, sobre essas teorias forma específica como estratégias de superação do método tradicional de ensino, mas sim, aliadas a esses saberes e pautadas nos valores e contribuições que cada um traz consigo, procuramos tentar entender como na prática, metodologias de ensino-aprendizagem que aqui serão destacadas poderão contribuir para a formação dos alunos. Pretende-se, assim, uma formação livre, que desperte o interesse pelo aprendizado, estimule a criatividade natural e intrínseca de cada indivíduo e contribua, de fato, a uma formação humana.
A proposta consiste em promover maior autonomia nesse processo e um maior incentivo para que os alunos sejam proativos e sintam-se estimulados a tomarem iniciativas capazes de contribuir para seu desenvolvimento pessoal. Segundo Montessori (1965, p.112), “a educação não deve ser apenas uma transmissão de conhecimentos, mas uma ajuda à vida. O mestre deve limitar-se a preparar o ambiente e guiar a criança, sem jamais substituir a sua atividade.”
Nesse contexto, o professor é um orientador dos saberes necessários à aprendizagem, um mediador do processo educativo que compõem cada currículo nas determinadas etapas da Educação Básica. Desse modo, como o próprio termo sugere, o aluno é sujeito ativo em seu processo de ensino-aprendizagem, não somente sujeito passivo diante desse processo. Para Martins e Azevedo (2022):
O que vem ocorrendo com a Educação contemporânea está indicando que mudar é preciso, o que implica que estejamos prontos para abandonar velhas práticas e abraçar o novo – inclusive o “novo normal” – com disposição. Obviamente, há ainda alguma resistência daqueles educadores desconfiados das mutações tão intensas. (Martins; Azevedo, 2022, p. 10).
De acordo com os autores, notamos a necessidade de mudança nos processos educacionais. Em tempos de pós-pandemia, revolução tecnológica, torna-se inviável resistir às mudanças advindas de todo esse processo. Trata-se de um “caminho sem volta” e certamente um caminho com muitos obstáculos que ainda virão, considerando a rapidez com que a dinâmica da sociedade vem se transformando.
Como bem apontado por Martins e Azevedo (2022), nos (re)descobriremos como educadores. Isso significa que nosso papel se torne menos importante ou menos necessário, pelo contrário, ao acompanharmos as mudanças e nos adaptarmos a elas, podemos nos tornar mais críticos em relação a essas transformações e aprimorar nossas metodologias de ensino-aprendizagem.
Como aponta Freire (1987), a chamada “educação bancária” reduz o estudante a um recipiente passivo, inviabilizando a construção da autonomia e da consciência crítica necessárias à transformação social. Para Zabalza (2004), as metodologias ativas contribuem para o protagonismo discente, exige que ele pense, decida, experimente e elabore respostas.
Ao mesmo tempo, é importante destacar que inovação, quando desvinculada de um horizonte ético-político, pode restringir-se a mudanças superficiais, uma ‘modernização’ sem o enfrentamento das desigualdades estruturais.
Nesse contexto, compreende-se que a centralidade do processo deve estar nos fundamentos ético-político-sociais que o orienta. Como destaca Saviani (2008), a educação deve ser entendida como prática social intencional, situada em um contexto histórico, sendo capaz tanto de reproduzir quanto de transformar a realidade social.
Propõe-se a seguir uma exemplificação de metodologias que a partir da condução docente, pode contribuir para uma formação mais humana, com protagonismo discente desenvolvimento do pensamento crítico.
Neste texto, utilizaremos o conceito de “ensino híbrido” conforme proposto por José Moran. Para o autor, “híbrido significa misturado, mesclado, blended. A educação sempre foi misturada, híbrida, sempre combinou vários espaços, tempos, atividades, metodologias e públicos” (Moran, 2015, p.27).
Diante de tais fatos, consideramos o ensino híbrido como indissociável ao processo de aprendizagem na atualidade, já que a tecnologia se faz presente de forma expressiva no cotidiano dos alunos, sobretudo por meio dos dispositivos móveis, mesmo com seu uso restringido no ambiente escolar, tendo em vista a Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025 (Brasil, 2025).
Temos a complexidade de uma contradição: a indissociabilidade entre o processo de ensino-aprendizagem e as tecnologias digitais e a restrição parcial do uso nas escolas. O fato é que, o que poderia ser um aliado no processo educacional, se transformou em um grave problema para as escolas: o uso do celular, na maioria das situações, não estava sendo utilizado para fins pedagógicos. A aprovação da lei foi muito necessária para repensarmos sobre como usar a tecnologia a favor dos processos de ensino-aprendizagem, e apenas concebê-la como ‘vilã’ já que estão tão enraizados na sociedade como um todo. Daí a necessidade da reflexão sobre as metodologias que envolvam o ensino híbrido e suas possibilidades. Santos (2021), fez um levantamento de pesquisas que tratavam das possibilidades e limitações do ensino híbrido, de acordo com a autora,
Embora tenham sido identificadas essas diferentes nuances para a formulação dos pesquisadores do que é Ensino Híbrido, o referencial teórico em comum parece trazer mais pontos de convergência que divergências. Nos vinte estudos analisados, prevalece, na conceituação de Ensino Híbrido, a noção de combinação entre o ensino presencial tradicional e o ensino on-line, sem evidente sobreposição de um deles, o que, de certo modo, pode ser surpreendente diante da noção solucionista, que costuma permear a presença das tecnologias no contexto escolar. (Santos, 2021, p.76-77).
Notamos nessa constatação, uma importante observação sobre não haver sobreposição entre os métodos de ensino aprendizagem, o ideal é que uma metodologia complemente a outra. Ao mesmo tempo, necessário que as tecnologias sejam utilizadas com cautela em favor dos processos educacionais. Existem inúmeras metodologias de ensino-aprendizagem atribuídas às tecnologias digitais, ferramentas essenciais ao ensino híbrido, e que podem ser empregadas a favor do processo educacional.
São exemplos de práticas que podem ser utilizadas no ensino híbrido, aliadas à formação humana, os estudos continuados extraclasse em sites de busca confiáveis e plataformas educacionais que auxiliam no processo de aprendizagem. A gamificação, que utiliza elementos típicos dos jogos, como desafios, pontuação, níveis e recompensas, adaptados a diferentes conteúdos. Uso de ferramentas de comunicação em grupo, que possibilitam aos alunos a realização de trabalhos coletivos. Organização de material digital para ser apresentado em sala de aula, como vídeos, slides e registros de abordagens diversas. Em síntese, são várias as possibilidades de práticas digitais que podem ser inseridas positivamente no contexto do ensino híbrido.
Nortear os alunos nesse processo é fundamental: orientá-los quanto ao uso adequado das ferramentas, das estratégias de busca e de pesquisas; oferecer possibilidades de acesso a conteúdo de qualidade no ambiente virtual; desenvolver a criticidade e de buscar a veracidade dos fatos em tempos de fake news e conteúdos produzidos por inteligência artificial; alertar sobre dependência tecnológica e outros males advindos do uso excessivo de telas; e principalmente, guiá-los para o caminho de fazer o uso das tecnologias para o bem, não somente no processo educacional, mas para a sociedade como um todo.
Uma crítica que pode ser abordada aqui é a questão do acesso. Ter consciência das condições materiais dos envolvidos é fundamental para que o método não se torne excludente.
A metodologia de ensino-aprendizagem baseada em Rotinas de Pensamento (ou Thinking Routines, no original em inglês) foi desenvolvida pelo Project Zero, da Universidade de Harvard. As rotinas são desenvolvidas no âmbito do projeto Artful Thinking (2015), que foca na experiência e na interpretação de obras de arte para auxiliar professores a estabelecer conexões entre as artes e o currículo.
Segundo o Project Zero (2023), uma rotina de pensamento consiste em um conjunto de perguntas ou em uma breve sequência de etapas utilizadas para estruturar e apoiar o pensamento do aluno. Os pesquisadores do Project Zero desenvolveram rotinas de pensamento para aprofundar o pensamento dos alunos e ajudar a torná-lo "visível". Essas rotinas contribuem para revelar o pensamento dos alunos ao professor, e auxiliam os próprios alunos a identificar e nomear "movimentos de pensamento" específicos, tornando esses movimentos mais acessíveis e úteis em outros contextos. (Project Zero, 2023).
Para Andrade (2021):
as Rotinas de Pensamento convidam os alunos de qualquer idade a serem observadores atentos, a organizar suas ideias, a raciocinar cuidadosamente e a refletir sobre como estão dando sentido às coisas que estão ao seu redor e às coisas que fazem. As rotinas são flexíveis o suficiente para serem usadas para envolver os alunos na compreensão de um artefato, de um conceito ou de um sistema. Elas podem, a princípio, parecer simples, mas é justamente sua simplicidade que as tornam fáceis de lembrar e de usar. Em vez de simplificar as ideias, as Rotinas de Pensamento oferecem maneiras diretas para apoiar os estudantes e suas investigações em contextos complexos. (Andrade, 2021, p. 20).
Ainda segundo a autora, são estratégias de reflexão em estruturas simples, autoexplicativas, que não demandam experiência ou saberes prévios para serem experimentadas.
As rotinas podem ser utilizadas para análises espaciais; percepção das paisagens e suas transformações; estudo da arte; elementos da história, ciências, matemática, enfim, são tantas possibilidades a serem exploradas e adaptadas para diversas aulas, que torna até difícil citá-las de forma pontual, cabendo ao professor mediador de cada área adaptá-las da melhor forma para sua utilização em sala de aula.
Andrade (2021), exemplifica uma das várias formas de usar as Rotinas de Pensamento:
Ver 10 X 2: observar uma imagem ou mapa em duas rodadas, primeiro observam-se dez coisas e registra-se por escrito, em seguida, observam-se mais dez coisas diferentes das primeiras, também as registrando. Então, observam-se lado a lado as listas, comparando-as, notando que diferenças na percepção ocorrem quando se aprofunda o foco e se observa para além do óbvio e imediato. Por fim, reflete-se metacognitivamente: o que esse modo de observar, registrar e comparar nos ensina sobre nosso próprio pensamento e sobre nossa forma de aprender? (Andrade, 2021, p. 25).
Sobre esse exemplo, abordado por Andrade (2021), a autora pontua que a prática da rotina “Ver 10 x 2” amplia percepções e raciocínios e, em seguida, estrutura uma reflexão sobre como esse modo de ver e pensar amplia progressivamente a capacidade de pensamento e de aprendizagem em situações de leitura de imagem (Andrade, 2021, p. 30). As Rotinas de Pensamento desempenham um papel significativo no fortalecimento da motivação e no desenvolvimento do autoconhecimento dos alunos. Ao permitir que os estudantes nomeiem e compreendam as novas capacidades adquiridas ao longo do processo de aprendizagem, essas rotinas favorecem a construção de uma consciência mais clara sobre seus próprios modos de pensar.
As devolutivas oferecidas por colegas e professores, baseadas na observação desses movimentos mentais, contribuem para que o aluno se reconheça como protagonista de seu próprio processo formativo. Nesse sentido, além de promoverem habilidades cognitivas, as rotinas também favorecem o diálogo, o protagonismo discente e o desenvolvimento do pensamento crítico, ao estimularem a autorreflexão, a empatia e a autonomia, aspectos fundamentais para o desenvolvimento integral dos educandos 1.
A Dinâmica GVGO (Grupo de Verbalização e Grupo de Observação) é um método de ensino-aprendizagem que incentiva a participação ativa dos alunos por meio da discussão e da observação em grupos distintos, cada um com objetivos específicos. Foi pensada e desenvolvida para estimular a reflexão crítica, a comunicação e a colaboração entre os alunos. Segundo Anastasiou e Alves (2003), a dinâmica pode ser dividida nas seguintes fases:
1. Dividir os alunos em dois grupos, um para verbalização de um tema/problema e outro de observação. 2. Organizá-los em dois círculos, um interno e outro externo, dividindo o número de membros conforme o número de alunos da turma. Em classes muito numerosas o grupo de observação será numericamente maior que o de verbalização. 3. Num primeiro momento, o grupo interno verbaliza, expõe, discute o tema; enquanto isso, o GO observa, registra conforme a tarefa que lhe tenha sido atribuída. Em classes muito numerosas, as tarefas podem ser diferenciadas para grupos destacados na observação. 4. Fechamento: o GO passa a oferecer sua contribuição, conforme a tarefa que lhe foi atribuída, ficando o GV na escrita. 5. Em classes com menor número de alunos, o grupo externo pode trocar de lugar e mudar de função - de observador para verbalizador. 6. Divide-se o tempo conforme a capacidade do tema em manter os alunos mobilizados. 7. O fechamento, papel fundamental do docente, deve contemplar os objetivos, portanto, incluir elementos do processo e dos produtos obtidos. (Anastasiou; Alves, 2003, p. 88).
Analisando as fases para a execução dessa metodologia em sala de aula, observamos um expressivo estímulo à participação ativa de todos os alunos, bem como o desenvolvimento de habilidades de observação, análise crítica, comunicação e a promoção de um ambiente colaborativo e de aprendizado mútuo, valores indispensáveis para uma formação humana.
A metodologia baseada em projetos funciona por meio da realização de atividades interdisciplinares, geralmente em grupo, nas quais os alunos se envolvem na resolução de problemas do mundo real. Segundo Filatro e Cavalcante (2018), o processo se inicia quando um professor ou especialista apresenta um tema instigante, que orienta as ações relacionadas ao projeto. Já a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) ou Problem-based Learning (PBL) “é uma abordagem que utiliza situações-problema como ponto de partida para a construção de novos conhecimentos” (Filatro; Cavalcanti, 2018, p. 37).
Compreendemos que tais metodologias na maioria dos casos podem ser associadas já que o “tema instigante que irá nortear as ações relacionadas ao projeto”, poderá surgir de um determinado problema. Ora, se temos uma situação-problema, é consequente e adequado propor a elaboração de um projeto para resolvê-la. Os projetos podem estar inseridos em diversas áreas da educação. Buscamos aqui citar alguns exemplos de situações problemas-projetos muito abordados nas escolas como: educação ambiental e preservação da água; campanha de prevenção de doenças; bullying e cyberbullying; combate ao desperdício de alimentos na escola; defasagem na aprendizagem de matemática ou outras disciplinas; dependência tecnológica e saúde mental; são inúmeros os temas que podem ser trabalhados com a junção dessas duas metodologias, e facilmente adaptáveis a qualquer área.
Na prática, ambas as metodologias envolvem investigação, planejamento, trabalho em equipe, conscientização, criatividade, engajamento, e principalmente, o protagonismo dos alunos diante do desafio de propor projetos que possam vir a solucionar as situações-problemas que eles próprios irão investigar no ambiente escolar ou na comunidade em que estão inseridos.
Ao lidar com problemas reais, inseridos no cotidiano e nas vivências dos alunos, estes não apenas aprofundam a compreensão dos conteúdos, mas também aprendem a trabalhar em equipe e a pensar de forma crítica e estratégica diante dos desafios propostos.
Juntas, essas metodologias estimulam a participação ativa dos estudantes, incentivando-os a aplicar conhecimentos de diferentes áreas para encontrar soluções práticas e significativas. Entre os principais benefícios, destacam-se o desenvolvimento da autonomia, do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de colaboração, competências essenciais para a vida pessoal e escolar, bem como para a formação humana.
Como foi possível observar, no processo dos estudos e levantamentos bibliográficos sobre nossa pesquisa por metodologias de ensino-aprendizagem inovadoras e aliadas à formação humana, são muitos os desafios impostos à educação. Ultrapassar as barreiras das metodologias tradicionais, sobretudo aquelas centradas na transmissão de conteúdo sem criticidade ou estímulo ao protagonismo e implementar metodologias inovadoras não é uma tarefa simples. Conquistar a formação que almejamos, humana, crítica e libertadora, demonstra um nível de complexidade tão necessário e importante como deve ser o processo de ensinar.
Ou seja, se não tentarmos, experimentarmos e não nos arriscarmos, não saberemos se estamos no caminho certo, e se novas metodologias de ensino-aprendizagem serão, de fato, eficazes para fugir do tradicionalismo e alcançar uma educação democrática e humana.
Nas metodologias levantadas nesse artigo, ativas, colaborativas e interdisciplinares, observamos possibilidades de eficácia nesses modelos, na medida em que estimulam a autonomia, o pensamento crítico e o protagonismo dos estudantes. Neste sentido, o papel do educador também se transforma: de transmissor de conteúdos a mediador e facilitador de experiências significativas de aprendizagem.
Além disso, a formação concebida como processo ético, estético, político e afetivo exige práticas pedagógicas que valorizem a empatia, o respeito mútuo, a escuta e a construção coletiva de sentidos. Integrar o conhecimento técnico-científico à dimensão ética e social da educação é um passo fundamental para a formação de sujeitos capazes de agir com responsabilidade e sensibilidade no mundo.
Portanto, ao alinhar metodologias inovadoras com uma visão humanizadora da educação, construímos caminhos mais férteis para o desenvolvimento pleno dos estudantes e para a construção de uma sociedade mais justa, crítica e solidária. “Se se respeita a natureza do ser humano, o ensino dos conteúdos não pode dar-se alheio à formação moral do educando. Educar é substantivamente formar”. (Freire, 2002, p.18).
Ao destacar a “imperiosidade da prática formadora” e a “radicalidade da esperança”, Freire (2002) nos convida, educadores e educandos, a não desistirmos diante das adversidades, reconhecendo que, embora a realidade possa se agravar, há sempre espaço para a intervenção consciente e transformadora. Segundo Freire (2002), a educação não deve se limitar à mera transmissão de conteúdos, mas assumir um papel ético e formador, orientado para o desenvolvimento de sujeitos críticos e conscientes. Nessa perspectiva, a esperança é como um elemento ativo e transformador do processo educativo, deixando de ser mera expectativa para tornar-se um ato político de resistência, sustentado pela ação reflexiva e pelo compromisso com a transformação da realidade social.
Conflitos de Interesses: Autores declaram que não há interesse comercial ou associativo que represente conflito de interesse com relação a este manuscrito.
Financiamento: O artigo recebeu financiamento de Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais-FAPEMIG.
Contribuições de autores: Paola Cristine Teixeira – Coautoria, com participação ativa na construção do texto, busca e análise de material bibliográfico. Juliana Cordeiro Soares Branco – Coautoria, com participação ativa, orientação do trabalho de pesquisa
Recebido: 29 de Março de 2026
Aceito: 20 de Maio de 2026
Publicado: 25 de Junho de 2026