A Terra Inteira e o Céu Infinito, de Ruth Ozeki: A narrativa como forma de produzir afinidades no Antropoceno

Melina Pereira Savi

Resumo


O Antropoceno é um termo da geologia, mas já é frequentemente utilizado nas humanidades para descrever e desafiar a lógica do excepcionalismo humano, que pode ser compreendida como a ideia alienada de que o humano não está profundamente imbrincado no mundo não-humano que o cerca. Diante das mudanças climáticas (a face pública do Antropoceno), o impacto humano produz uma crise planetária que coloca em xeque a nossa forma de entender até mesmo a disciplina da história: ela deixa de focar apenas na trajetória humana (registrada) e passa a considerar o tempo profundo do planeta, antes dos humanos, para entender a dimensão do nosso impacto no presente e no futuro. Neste artigo, utilizo o livro A Terra Inteira e Céu Infinito, de Ruth Ozeki, para ponderar como a narrativa contribui para encontrarmos formas de estar no mundo que vão na contramão da lógica do excepcionalismo humano e que compreendem como indispensável o processo de estabelecer afinidades com humanos(as) que não são da mesma família e com seres e coisas que nem humanas são. O conceito de “afinidade” é, entre outras coisas, uma forma de co-responsabilização pelas narrativas que juntos criamos e pelas normalizações que são feitas a partir dessas histórias sobre como interagir com outros: humanos, seres e “coisas” não-humanas das quais dependemos e que dependem de nós. Pensar em afinidades na literatura pode não resolver o problema, mas pode auxiliar no processo de normalizar formas de viver que têm o potencial de desacelerar a presente crise ambiental.

Palavras-chave


Antropoceno; Literatura de Mudanças Climáticas, Ruth Ozeki

Texto completo:

PDF

Referências


CHAKRABARTY, Dipesh. “The Climate of History: Four Theses”. Critical Inquiry, Vol. 35, No. 2 (Winter 2009), p. 197-222.

CLARK, Timothy. “Nature, Post Nature”. The Cambridge Companion to Literature and the Environment. New York: Cambridge University Press, 2014.

CLARK, Nigel. “Geo-politics and the disaster of the Anthropocene”. The Sociological Review, 62:S1, pp. 19–37, 2014.

DANOWSKI, Déborah; DE CASTRO, Eduardo Viveiros. Há Mundo por Vir? Ensaio Sobre os Medos e os Fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2015.

DAVENPORT, Coral. With Trump in Charge, Climate Change References Purged from Site. The New York Times. New York, 2017. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2019.

GAARD, Greta. “Mindful New Materialisms: Buddhist Roots for Material Ecocriticism’s Flourishing”. In: IOVINO, S., OPPERMAN, S. (Orgs.) Material Ecocriticism. Indiana: Indiana UP, 2014.

HARAWAY, Donna J. Staying with the Trouble: Making Kin in the Anthropocene. London: Duke University Press, 2016.

HARAWAY, J. Donna. “Otherwordly conversations, Terran Topics, Local Terms.” In: ALAIMO, S., HEKMAN. S. (Orgs.) Material Feminisms. Indianda: Indiana UP, 2008.

JOHNS-PUTRA, Adeline. “Climate change in literature and literary studies: From cli-fi, climate change theater and ecopoetry to ecocriticism and climate change criticism”. In: WIREs Clim Change, n 7, p.266–p.282, 2016.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LATOUR, Bruno. Facing Gaia: Eight Lectures on the New Climatic Regime. Polity Press, 2017.

OZEKI, Ruth. A Terra Inteira e o Céu Infinito. Rio de Janeiro: Casa das Palavras, 2013.

PURDY, Jedehiah. After Nature: A Politics for the Anthropocene. Cambridge: Harvard UP, 2015.

RIGBY, Kate. “Confronting Catastrophe: Ecocriticism in a Warming World”. In: WESTLING, L. (Org.) The Cambridge Companion to Literature and the Environment. New York: Cambridge University Press, 2014.

SENGUPTA, Somini; FRIEDMAN, Lisa. At U.N. Climate Summit, Few Commitments and U.S. Silence. The New York Times. New York, 2019. Disponível em: Acesso em 10 out. 2019.

ZALASIEWICZ, J., et al. “When did the Anthropocene begin? A mid-twentieth century boundary level is stratigraphically optimal”. Quaternary International, p. 1-8, 2014.

ZYLINSKA, Joanna. Minimal Ethics for the Anthropocene. Open Humanities Press, 2014.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


          
 

                           

 

 
contador de acesso grátis Acessos

 

PERIÓDICO POLIFONIA
Universidade Federal de Mato Grosso/Cuiabá-MT/Brasil
Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens – Mestrado e Doutorado
Instituto de Linguagens – Piso 2, sala 42. Av. Fernando Corrêa da Costa, 2.367, Boa Esperança, Cuiabá-MT. CEP: 78.060-900
(65)3615.8408 – Fax: (65)3615.8418
http://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia
polifoniapa@gmail.com

 

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

 

Design e editoração eletônica